Burnout: Inteligência Emocional sob pressão (Parte 1)14 min de leitura

O impacto da síndrome de burnout no ambiente organizacional

“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.”

Sigmund Freud

A palavra “pressão” tem suas origens em uma forma latina cuja raiz é pressio e o sufixo onis, isto é, pressionis. Lato sensu, o termo corresponde ao ato ou efeito de pressionar, comprimir ou apertar. Surgiu no século XIV para representar angústia, sofrimento ou castigo para o coração ou a mente, e no francês arcaico o termo presseure relacionava-se a palavras como opressão e tortura.

Como conceito da física, a pressão (P) passou a ser utilizada em meados do século XVII para designar a relação existente entre uma força específica e seu campo de distribuição. Já na medicina, a pressão arterial é um dos principais indicadores do estado geral de saúde de uma pessoa.

Trata-se de uma propriedade inerente a diversos sistemas que pode ser medida e controlada por meio de alguns mecanismos específicos. No âmbito psicológico não é diferente, e a pressão tem sido uma companheira de jornada da humanidade ao longo dos séculos.

Subjetivamente, ela está presente desde a infância, nas relações familiares, na vida escolar e por fim no trabalho. A própria educação representa, de certo modo, uma resposta à pressão externa para fazer algumas coisas e não fazer outras.

O abolicionista norte-americano James G. Bilkey (1792-1857) já dizia: “você nunca será a pessoa que você pode ser se tirarem da sua vida a pressão, a disciplina e a tensão”.

Suportar e responder de forma construtiva à pressão é um resultado direto do desenvolvimento da resiliência, qualificando-nos como pessoas aptas ao convívio social.

Ser capaz de suportar a pressão física e mental em diversas circunstâncias é uma das mais aclamadas qualidades humanas. John Kennedy afirmava que “coragem é manter a classe mesmo sob pressão”, enquanto o escritor Ernest Hemingway conceituava coragem como “graça sob pressão”.

É no mundo profissional que a questão da pressão hoje ganha mais relevância, convertendo-se praticamente em uma cultura. Ambientes de trabalho propulsores de altos índices de desempenho, estruturados a partir de demandas que cada vez mais extrapolam a capacidade física e mental humana em suportá-las, mantêm-se por meio de diferentes e sofisticados mecanismos de pressão.

Figura 1.0 Trabalho sob pressão.

Um breve histórico da pressão corporativa

A pressão tornou-se oficialmente um elemento impulsionador de negócios na década de 1980, quando executivos e técnicos criativos defendiam a escalada profissional meteórica, baseada em sistemas combativos de gestão. Muitos líderes até incitavam a competição e a rivalidade na equipe, as quais frequentemente resultavam em colapsos nervosos e conflitos.

Já nos anos 1990, emergiram a cultura da qualidade de vida, da cooperação e do bem-estar laboral, fundamentada na conciliação entre vida pessoal e vida profissional e no conceito de funcionário integral, feliz no trabalho e fora dele.

No entanto, com a crise global de 2008 e os novos desafios impostos pela revolução digital, a pressão retornou com força total à rotina corporativa, criando ambientes hipertensos de reestruturação de áreas produtivas, cortes de custos, planos de demissão coletiva e sistemas agressivos de metas.

Atualmente o esgotamento profissional é um fenômeno global. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a condição como “uma síndrome ocupacional resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso” (OMS, 2019).

O termo burnout foi cunhado na década de 1970 pelo psicólogo alemão-americano Herbert J. Freudenberger ao notar que seu próprio trabalho, antes tão produtivo e recompensador, havia se tornado exaustivo e frustrante. Ele começou a analisar a rotina de seus colegas, passando em seguida para pessoas fora do campo médico.

Freudenberger observou e relacionou sintomas frequentes, como depressão, sensação de incapacidade, insônia, variações de humor e dificuldade de concentração, além de problemas físicos como dores nas costas e distúrbios digestivos.

O psicólogo realizou então o diagnóstico inédito da síndrome de burnout, um estresse extremo e devastador ligado exclusivamente ao trabalho (SCIENTIFIC AMERICAN, 2006).

Figura 1.1 Burnout.

Burnout (“queimar-se de dentro para fora”) corresponde a “um estado de fadiga e frustração causado pela devoção a uma causa, um estilo de vida, ou por um relacionamento que deixou de produzir a recompensa esperada” (NEUBAUER et al., 1999).

O burnout é caracterizado por um profundo sentimento de decepção e exaustão em relação ao trabalho desempenhado, podendo estender-se a outras áreas da vida da pessoa por meio de um processo conhecido como spillover ou derramamento (WEISS, 1999).

Mais recentemente, Freudenberger e sua colega Gail North criaram o chamado ciclo do burnout, dividindo o processo em 12 fases, não necessariamente presentes e consecutivas em todos os casos.

Os 12 estágios do burnout

“O sofrimento é a lei de ferro da natureza.”

Eurípedes

Como a maioria das doenças, o burnout é uma condição que apresenta diversos estágios. Assim, o indivíduo em exaustão pode experimentar desde leves sinais de ansiedade até um quadro alarmante de depressão e estafa. A síndrome geralmente envolve os seguintes fatores, mais ou menos preponderantes em cada pessoa (SCIENTIFIC AMERICAN, 2006):

1. Compulsão por reconhecimento

Todo ser humano precisa ser reconhecido. Não se trata de imaturidade, orgulho ou egoísmo, mas sim da necessidade, desde a infância, de obter respeito e carinho das pessoas ao redor.

Algumas pessoas, porém, vivem em uma busca incessante por reconhecimento para alcançar satisfação emocional. Frequentemente desenvolvem dependência emocional e submissão, deixando os próprios desejos de lado para se sentirem admirados e aceitos socialmente.

Esse comportamento geralmente esconde medos, carências e baixa autoestima, tornando o indivíduo refém da aprovação alheia.

Ele costuma acometer principalmente os melhores funcionários, aqueles que sempre se prontificam a assumir mais responsabilidades.

2. Overwork

O excesso de trabalho e a incapacidade de se desligar do mesmo é um dos sintomas iniciais e mais comuns do burnout. Jornadas de trabalho estendidas, no entanto, acabam sendo contraprodutivas, esgotando o organismo e deixando a pessoa sem forças para dar o seu melhor no ambiente laboral. 

Conforme um recente estudo da Universidade de Stanford, a produtividade dos funcionários é consideravelmente reduzida após mais de 50 horas trabalhadas por semana, diminuindo ainda mais depois de 56 horas semanais. Já quem trabalha 70 horas por semana não consegue produzir mais nas 14 horas adicionais (CNBC, 2019).

Em 2013, a jornalista japonesa de 31 anos Miwa Sado morreu por insuficiência cardíaca. Somente no final de 2017, porém, a TV pública do Japão NHK confirmou que o óbito foi provocado por excesso de trabalho. Ela cobria as eleições da Assembleia Metropolitana de Tóquio e da Alta Câmara Nacional, e acabou falecendo três dias após o término do segundo evento. No mês anterior ao falecimento da jornalista, ela contabilizava 159 horas extras e apenas dois dias de folga.

O Japão ainda mantém uma cultura baseada na crença de que elevadas cargas horárias significam maior empenho e honra ao trabalho. No ano de 2016, um em cada cinco trabalhadores no país correu risco de morte por overwork, enquanto 22,7% das empresas locais ouvidas entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016 revelaram ter colaboradores com mais de 80 horas extras mensais (VEJA, 2017).

Figura 1.2 Overwork.

3. Necessidades pessoais negligenciadas

Dormir poucas horas por noite, ingerir alimentos pouco saudáveis e ter pouco tempo livre são outros sintomas iniciais de burnout.

Muitas pessoas assumem um papel de herói, crendo que é necessário colocar os interesses da carreira e da organização em geral antes dos próprios.

Elas acreditam ter força suficiente para atender a outros interesses antes dos pessoais, o que com o passar do tempo revela-se um grave erro. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) ensinava que “não é uma questão de passar o cuidado dos outros para o primeiro plano, colocando-os no cuidado de si mesmos; o autocuidado é eticamente o primeiro, na medida em que a relação a si mesmo é ontologicamente a primeira” (FOUCAULT, 2010).

4. Conflitos internos

Ao tentar esconder partes de si mesma consideradas desagradáveis e vergonhosas, a pessoa passa a experimentar conflitos internos. Sigmund Freud ensinava que o subconsciente é como uma criança: se não receber atenção suficiente, vai fazer de tudo para ser notado. “A voz do inconsciente é sutil, mas não descansa até ser ouvida”, dizia o pai da psicanálise. Tentar reprimir as próprias emoções e partes de seu self gera sentimentos conflitantes em relação a si mesmo e aos demais (FREUD, 2017).

5. Distorção de valores

Quando os valores são distorcidos, familiares e amigos são deixados de lado, qualquer diversão torna-se irrelevante e o trabalho parece ser a única coisa realmente importante na vida do indivíduo. Mais do que isso: a pessoa passa a se sentir culpada por desfrutar momentos de lazer e torna-se escrava da própria profissão.

6. Negação

O indivíduo fica cada vez mais intolerante e passa a taxar os colegas de trabalho como preguiçosos, estúpidos e indisciplinados. Qualquer oferta de ajuda é recusada e todos os problemas passam a ser vistos como falta de tempo e trabalho, enquanto a pessoa torna-se cínica e agressiva.

7. Isolamento social

O comportamento hostil gera conflitos no trabalho e por fim isola o indivíduo, que usufrui de pouca ou nenhuma vida social. Aqui, álcool e drogas são utilizados como mecanismos de fuga, para aliviar momentaneamente o estresse e o enorme desgaste emocional experimentados.

8. Alterações comportamentais

Nesta fase a pessoa apresenta mudanças comportamentais ainda mais evidentes, preocupando familiares e amigos. Ela tende a manifestar impaciência, raiva sem motivos aparentes e conduta obsessiva. 

9. Despersonalização

O indivíduo não consegue valorizar ninguém – nem a si mesmo – e já não reconhece suas próprias necessidades básicas. Começa a tornar-se melancólico e apático. Podem surgir também ataques de pânico e crises de ansiedade.

10. Sensação de vazio

Aqui a pessoa experimenta a sensação de estar à deriva, desiludida e imersa em um mar de dúvidas quanto ao sentido da própria existência. Aflição, angústia e sessões de choro compulsivo também são frequentes nesta fase.

11. Depressão

O indivíduo sente-se perdido, inseguro, exausto e temeroso em relação ao futuro. Ele vê a si mesmo como uma pessoa mesquinha, egoísta, incorreta e indecente. Nada consegue animá-lo e sentimentos de tristeza profunda e/ou perda de interesse nas atividades rotineiras intensificam-se.

12. Síndrome de Burnout

Um colapso mental e físico, que deve ser analisado e tratado por especialistas. Os primeiros sintomas do burnout são amenos e costumam passar despercebidos.

Ignorar ou minimizar o problema, porém, é perigoso e geralmente leva ao agravamento do quadro.  

No âmbito organizacional, a síndrome de burnout está associada à baixa satisfação pessoal no trabalho, redução da produtividade, absenteísmo e grande rotatividade de funcionários. 

Os sintomas da síndrome de burnout podem ser subdivididos em físicos, psíquicos, comportamentais e defensivos (BENEVIDES-PEREIRA, 2008):

  • Físicos

Fadiga frequente e progressiva, insônia, dores musculares e osteomusculares, cefaleias, enxaquecas, perturbações gastrointestinais, imunodeficiência, transtornos cardiovasculares, distúrbios respiratórios, disfunções sexuais e alterações menstruais em mulheres.

  • Psíquicos

Desatenção, falhas de memória, pensamento lento, sentimento de alienação e solidão, impaciência, sensação de insuficiência, baixa autoestima, labilidade emocional, dificuldade de autoaceitação, astenia, desânimo, disforia, depressão, desconfiança e paranoia.

  • Comportamentais

Conduta negligente ou excessivamente escrupulosa, irritabilidade, agressividade, incapacidade para relaxar, dificuldade para aceitar mudanças, perda de iniciativa, aumento do consumo de substâncias (bebidas alcoólicas, café, fumo, tranquilizantes, substâncias ilícitas, entre outras), comportamento de alto risco e tendência ao suicídio.

  • Defensivos

Reclusão, perda do interesse pelo trabalho e até por atividades de lazer, absenteísmo, ironia e cinismo.

O Burnout é um fenômeno psicossocial relacionado ao contexto laboral resultante do estresse crônico, típico da rotina de trabalho. Caracteriza-se pela exaustão emocional, despersonalização e falta de realização pessoal. A FELLIPELLI reconhece a importância do bem-estar emocional em todas as atividades profissionais, por isso disponibiliza cursos e assessments exclusivos sobre inteligência emocional, desenvolvimento pessoal, desenvolvimento de equipes, liderança e diversos outros temas.

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Para saber mais:

  • Why Zebras Don’t Get Ulcers. Robert M. Sapolsky. Owl Books, 2004.
  • Women’s Burnout: How to Spot It, How to Reverse It, and How to Prevent It. Herbert J. Freudenberger and Gail North. Doubleday, 1985.
  • The Burnout Society. Byung-Chul Han. Stanford Briefs, 2015.
  • No Limite Do Stress: Tudo Que Aprendi Com Burnout E Que Pode Ser Útil Pra Você. Roberta Carusi. Publicação independente, 2018.
  • Desvendando o Burn-out: Uma análise interdisciplinar da síndrome do esgotamento profissional. Marcos Mendanha, Pablo Bernardes e Pedro Shiozawa. Editora LTr, 2018.
  • Terapia cognitivo-comportamental na síndrome de Burnout: conceitualização e intervenções. Anelisa Vaz de Carvalho (Organizadora). Sinopsys Editora, 2019.

Referências bibliográficas

  • SCIENTIFIC AMERICAN, 2006. Burned out.  Acesso em: 15/02/2020.
  • NEUBAUER, W., GAMPE, H., KNAPP, R. & WICHTERICH, H. (1999). Konflikte in Der Schule. Neuwied: Luchterhand. cap. 6: Allgemeine Verhaltensprobleme.
  • WEISS, J. (1999). Stressbewältigung und Gesundheit. Bern: Hans Huber.
  • OMS, 2019. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. Acesso em: 15/02/2020.
  • SARRAF, Danielle. Para não perder o seu crachá. Harper Collins, 2016.
  • KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras, 2019.
  • FREUD, S. (1917/1997). Trauer und Melancholie. In A. Mitscherlich, A. Richards, J. Strachey (Dirs.), Sigmund Freud – Studienausgabe (Vol. III). Frankfurt am Main: Fischer.
  • BENEVIDES-PEREIRA, AMT. Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. 3rd ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.
  • CNBC, 2019. Stanford professor: Working this many hours a week is basically pointless. Here’s how to get more done—by doing less. Acesso em: 15/02/2020.
  • VEJA, 2017. Japonesa morre depois de fazer mais de 159 horas extras em um mês. Acesso em: 15/02/2020.
  • FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. Editora Martins Fontes Paulista, 2010.
  • FREUD, Sigmund. Fundamentos da Clínica Psicanalítica. Editora Autêntica, 2017.
  • ANAMT, 2018. Associação Nacional de Medicina do Trabalho. 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome de burnout. Acesso em: 15/02/2020.
  • ISMA-BR, 2017. No limite. FEHOESP 360. Edição 09 / maio de 2017. Acesso em: 15/02/2020.
  • GROOVE, Andrew S. Só os paranoicos sobrevivem. Editora Gradiva, 2000.
  • HEIFETZ, Ronald A. e LINDSKY, Marty. Liderança no fio da navalha. São Paulo: Campus, 2002.
  • NYT, 2015. CORNER OFFICE: Joel Peterson of JetBlue on Listening Without an Agenda. Acesso em: 15/02/2020.
  • BURNS, David D. Antidepressão: A Revolucionária Terapia do Bem-estar. Cienbook, 2017.
  • MCKEOW, Greg. Essencialismo: a disciplinada busca por menos. Editora Sextante, 2015.
  • BUFFETT, Mary & CLARK, David. The Tao of Warren Buffett: Warren Buffett’s Words of Wisdom: Quotations and Interpretations to Help Guide You to Billionaire Wealth and Enlightened Business Management. Scribner, 2006.

Tema: Inteligência Emocional, EQ-i® 2.0, Burnout

Subtema: O comprometimento da síndrome de burnout no ambiente de trabalho.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento de Liderança, Desenvolvimento de Equipe, Coaching, Coaching nas Empresas.

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