O ser humano tem medo8 min de leitura

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Provoque a confiança!

Por Kátia Gaspar, Especialista em DO

Sabemos que o cérebro é o órgão mais importante do sistema nervoso, uma verdadeira máquina de conexões que envia milhares de informações e elabora sinapses durante o tempo todo, mesmo sem percebermos. Também pode ser um grande sabotador da nossa confiança se não soubermos como ele funciona. Sob a ótica da neurociência, é possível dizer que o cérebro percebe duas vezes mais forte as situações como ameaça do que como recompensa. Por isso, quando nosso cérebro capta informações e as identifica como ameaça, nosso corpo tem uma reação aguda. O sistema nervoso assume o comando e desencadeia a reação de lutar, paralisar ou fugir (como já vimos anteriormente), resultando em impotência e ansiedade, que acabam debilitando as funções executivas, cruciais para enfrentar desafios, otimizando as funções do sistema límbico.

Como ser mais confiante e eliminar o medo?

Um estudo feito pela americana Amy Cuddy, psicóloga social e pesquisadora da Harvard Business School, diz que se mantivermos nossa mente no momento presente podemos mudar, positivamente, a forma como lidamos com nossas reações, facilitando, consequentemente, a forma

como lidamos com situações desafiadoras.

É muito fácil e rápido desviarmos nossa atenção do momento presente. Qualquer distração, interna ou externa, pode fazer com que desviemos, rapidamente, do que realmente importa. Você já percebeu que, dificilmente, nossa mente está no momento presente?

Vivemos em três dimensões temporais: presente, passado e futuro, e é muito comum nossa mente se distrair com as memórias do passado ou projeções futuras. Normalmente, nos preocupamos com o que os outros pensam sobre nós, em vez de darmos a devida atenção ao que, de fato, é importante para nós.

Em função dessas ameaças socioemocionais sentimos MEDO, e nossas reações de fuga ou luta nos afastam do momento presente; fugir nos impede de manter envolvimento com o que é necessário e lutar nos tira do momento presente porque pode não refletir a realidade.

Portanto, manter nossa mente atenta ao momento presente exige muito treino e disciplina. Se quisermos ser mais autoconfiantes e sentir menos medo, essa é uma habilidade extremamente necessária.

Quando nos sentimos presentes, atentos ao que estamos fazendo, tudo se alinha automaticamente, pois pensamos, sentimos e agimos de forma integrada e, consequentemente, temos mais confiança em nós mesmos e transmitimos essa confiança para as pessoas ao nosso redor. Para que isso aconteça, precisamos deixar o mundo em silêncio para ouvir a nós mesmos, precisamos pensar.

Temos o costume de refletir pouco sobre nós mesmos e fazer muitas coisas, às vezes, ao mesmo tempo. Precisamos ter em mente que somos seres humanos e não máquinas ou robôs. Frequentemente, agir de maneira automática, ou seja, o ato de fazer sem pensar, não nos permite trazer à consciência nosso valor como indivíduo. Desta maneira, a construção da autoestima se torna frágil e ela é um fator importante para identificar nossa própria capacidade para enfrentar as situações da vida.

Uma pessoa com boa autoestima não necessita da validação externa para prosperar nem desmorona ao primeiro sinal de ameaça. Em vez de se preocupar com a validação externa, ela se conecta com o momento presente, com as ações que devem ser realizadas e tem tempo para refletir sobre o seu próprio comportamento perante as situações. Ter consciência sobre si mesmo traz a percepção sobre os comportamentos que devem ser reconhecidos como positivos e os que devem e precisam ser desenvolvidos.

Transformar nosso comportamento depende das recordações que tivemos sobre nossas experiências!

Nosso cérebro gosta de automatizar todos os comportamentos que trazem alguma forma de recompensa, afetando os comportamentos que poderemos escolher repetir, inconscientemente. Quando, de fato, não conhecemos a nós mesmos, podemos escolher, de forma inconsciente, por exemplo, desviar de situações que nos pareçam ameaçadoras, pois a falta de autoconhecimento leva nosso olhar para as situações e não para nós mesmos.

A autoconfiança consiste em ter consciência sobre a própria maneira de pensar, sobre valores e determina quais ações serão necessárias para seguirmos adiante. Se nossas ações não forem coerentes com nossa personalidade, não somos fiéis a nós mesmos, afinal, a fonte da autoestima elevada é nosso interior.

Há alguns anos eu não entendia o porquê de uma pessoa não se arriscar. Hoje entendo e percebo que existem várias razões. Uma delas é não saber reconhecer a si mesmo. Alguns são críticos demais; outros acreditam que falar sobre si mesmo de uma forma positiva pode parecer arrogância. Porém, quando não nos reconhecemos como agentes da nossa própria história, nos tornamos impotentes. E, quando nos tornamos impotentes, somos ameaçados pelas situações externas. Por isso, construir a própria história é a melhor maneira de conhecermos a nós mesmos, entendendo os fatos e as habilidades que nos fizeram ser quem realmente somos. Nossas escolhas conscientes são as responsáveis por alcançarmos ou não o que queremos. Devemos deixar de lado frases como: “Foi sorte o que consegui” ou “Dei azar”. Em primeiro lugar, precisamos convencer a nós mesmos sobre o que nos capacita a lidar com situações desafiadoras. Muitas vezes, não aprendemos a reconhecer o que, de fato, fizemos como positivo para estarmos onde estamos.

A pessoa que realmente acredita no valor e na integridade de sua história, e em sua capacidade de concretizá-la, automaticamente transmite confiança. A fala, as expressões faciais e as posturas são congruentes.

Dessa maneira, ela não transmite arrogância, transmite, sim, confiança, porque expressa o que realmente pensa. Age de modo confiante, sem acreditar que a aprovação ou rejeição dos outros é mais importante que as próprias. Faz, simplesmente pelo desejo de expressar sua maneira de pensar e agir, mantendo- se flexível para mudar quando fizer sentido para ela.É importante ressaltar que nosso cérebro busca recompensas físicas e sociais e a autonomia é uma das necessidades sociais que buscamos como recompensa. Quando temos autonomia, nos sentimos livres de ameaças e em segurança. Sentimos ter o controle sobre as situações e isso é muito bom! Aumentamos nossa capacidade de sintonizar com oportunidades, otimizando nosso entusiasmo e confiança, indicadores essenciais de sucesso.

Estudos feitos com empresários indicam que essa qualidade demonstra garra, disposição para trabalhar duro, iniciativa, persistência face aos obstáculos, criatividade, capacidade de identificar boas oportunidades e ideias inovadoras. A autonomia nos torna livre de ameaças e em segurança.

Pode parecer um exagero, mas não é! De acordo com os neurocientistas, quando nos sentimos poderosos, nos sentimos maiores. Empinamos o queixo e recuamos os ombros. Estufamos o peito. Separamos os pés e em momentos de vitória, automaticamente, erguemos os braços e alteramos nosso comportamento não verbal.

Nossos pensamentos mudam nossas posturas e nossas posturas alteram nossos pensamentos.

De acordo com as pesquisas feitas por Amy Cuddy, adotar posturas de confiança fazem a testosterona aumentar e o cortisol diminuir. A testosterona e o cortisol flutuam em reações às mudanças de poder e status do indivíduo. Esse perfil está associado à alta assertividade e baixa ansiedade, para facilitar o senso de presença em momentos desafiadores.

Talvez, a descoberta mais importante deste estudo mostre que adotar posturas expansivas e abertas faz com que nos sintamos melhor e mais eficientes de várias maneiras. Além das posturas, as práticas meditativas são eficientes para o desenvolvimento da consciência emocional. Reconhecer que tipo de emoção está presente e como ela se manifesta no corpo e na respiração, ajuda a pessoa a retomar o controle de si. Tão importante quanto ser autoconfiante é ter a capacidade de correr novos riscos. Muitas vezes, os riscos provocam medo. Não podemos ganhar mais habilidades se não enfrentarmos novos riscos. É necessário entender que novos desafios virão, mas podem ser apenas oportunidades de desenvolvimento e não ameaças. Gosto muito de uma frase que diz: “Só sabemos o gosto do chá depois de jogar água quente”. Isso significa que, ao enfrentarmos novas situações, liberamos adrenalina, que promove uma queda na testosterona e aumento de cortisol. Somente pessoas com capacidade de correr novos riscos sabem lidar com esses novos desafios e aceitam como uma oportunidade de desenvolvimento. Elas agem de forma natural, entendendo a situação conscientemente, sem deixar que o medo assuma o controle. A confiança tem relação direta com a capacidade de reconhecer habilidades e a disposição para enfrentarmos riscos, geralmente associados às nossas experiências passadas ou projeções futuras. Mas tome cuidado! O excesso de confiança pode ser perigoso! Seja confiante para enfrentar o que tem capacidade. Tenha prudência para parar quando sentir que não é capaz.

Lembre-se que a única pessoa que pode responder se você deve seguir ou parar é a sua consciência e nunca o seu medo.

Fonte: Revista Coaching Brasil, edição Fev/2018, nº 57


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