Inteligência Emocional para navegar pela incerteza12 min de leitura

Por Adriana Fellipelli para o Linkedin, em 07/08/2020

“A emoção é o momento em que o aço encontra a pedra e provoca uma faísca, pois a emoção é a principal fonte de qualquer tomada de consciência.”

– Carl Gustav Jung

Diariamente, dezenas de emoções diferentes ocupam um lugar na nossa vida: alegria, tristeza, surpresa, medo, admiração, gratidão… Equivocadamente, porém, elas acabam classificadas como boas ou más, positivas ou negativas, enquanto, na realidade, todas as emoções são úteis de alguma forma. 

Elas geralmente atuam em três grandes planos: pensamentos, comportamentos e relações sociais. Embora cada sentimento desempenhe um papel importante, alguns dos seus efeitos em nós mesmos ou nos outros podem ser prejudiciais devido às atitudes que inspiram.

Descendentes dos homens das cavernas, nós usamos as emoções tanto quanto nossos ancestrais para sobreviver e prosperar. Hoje, os perigos não são animais selvagens, mas seguem bastante ameaçadores: conflitos familiares, mercados de trabalho competitivos, rotinas estressantes etc. E, mesmo após tantos anos, nossas reações ainda são as mesmas: os batimentos cardíacos disparam, certos músculos se contraem, a expressão facial muda e experimentamos um ímpeto de fuga.

A comunicação verbal corresponde a apenas 7% da interação humana, enquanto 93% se dá de modo não verbal, por meio de intensidade, tom de voz, postura, microexpressões, forma de andar etc.

As microexpressõessão expressões faciais muito rápidas, que duram apenas uma fração de segundo e ocorrem quando a pessoa, deliberada ou inconscientemente, tenta esconder seus sentimentos.

Mais de 99% da população não é capaz de identificar estes sinais, inclusive psicólogos e psiquiatras. Com treinamento adequado, porém, é possível reconhecê-los em tempo real, implicando diretamente no modo como diversas situações são abordadas ou conduzidas.

Figura 1 Conflito neural.

Fisiologicamente, microexpressões são indícios de estresse, ou seja, formam-se quando os sistemas cognitivo e emocional entram em um conflito neural, gerando uma evasão de breves manifestações físicas. Isto acontece, por exemplo, quando a pessoa não acredita no que diz ou sente algo diferente do que demonstra (Ekman,1973).

Gestão emocional não é um tema novo, porém ainda hoje poucos de nós sabem exatamente o que isso representa e para que serve.

Quantos conflitos você já enfrentou por uma explosão de raiva, quantas atitudes impensadas, quantos relacionamentos terminaram ou ficaram seriamente abalados após uma reação impulsiva? Você já perdeu alguma oportunidade profissional por causa de algum sentimento em relação a algo ou alguém?

Os desequilíbrios entre emoção e razão, ação e reação, são causadores de muitos prejuízos – às vezes irreparáveis – em todas as áreas da vida.

O mal não está nas emoções em si, mas sim nas reações que elas incitam.

Somos seres emocionais, ou seja, necessitamos de todas as emoções, e cada uma desempenha uma função específica em nossa existência. O X da questão aqui é tornar-se apto a prevenir comportamentos inadequados oriundos de emoções que não compreendemos e, justamente por isso, não gerenciamos.

O grande objetivo da gestão emocional é promover ações conscientes, na intensidade adequada, com o alvo correto e um propósito assertivo. Para atingi-lo, experimente seguir estes quatro passos poderosos:

1º passo: Treine seu “músculo de tolerância à incerteza”

Os seres humanos não gostam da incerteza na maioria das situações, mas a atual pandemia de Covid-19 está impondo um verdadeiro “tratamento de choque” sobre lidar com incógnitas.

Você pode detestar a incerteza porque tem medo de como se sairia se as coisas dessem errado. Quando você não confia em sua própria capacidade de enfrentar eventos negativos, a tendência é superestimar o quão mal você se sentiria caso algo ruim acontecesse, enquanto suas habilidades de enfrentamento e resiliência são subestimadas.

No entanto, se um evento temido se concretizar, você provavelmente se sairá muito melhor do que consegue imaginar agora. O que você faz quando não sabe como fazer uma tarefa no trabalho? Pede ajuda ou se preocupa, pesquisa no Google, procrastina?

Figura 1.1 A busca por informações precisas hoje reduzem ainda mais nossa tolerância às incertezas.

Os recursos tecnológicos contemporâneos reduziram ainda mais nossa já baixa tolerância à incerteza; é possível verificar as previsões climáticas e as condições do tráfego rapidamente no celular, enquanto o paradeiro e as emoções de familiares e amigos podem ser facilmente acessados por meio das mídias sociais e mensagens de texto.

Essa prevenção da incerteza pode proporcionar algum alívio em curto prazo, porém diminui sua capacidade de aceitar qualquer situação que não seja a absoluta certeza em médio/longo prazo. A tolerância à incerteza funciona como um músculo que enfraquece se não for exercitado – por isso, comece gradualmente a treiná-lo: na próxima vez em que estiver perdido – mas não estiver atrasado – resista ao impulso de consultar imediatamente o GPS, ou vá ao cinema sem procurar saber sobre o filme antes. Com o tempo, o desconforto dará lugar à serenidade diante do desconhecido.  

2º passo: Abrace sua vulnerabilidade

Nossa sociedade ainda valoriza pessoas que parecem fortes e impassíveis o tempo todo, como se expor à própria vulnerabilidade em alguns momentos fosse um imperdoável sinal de fraqueza de caráter.

Nos dicionários, o termo vulnerável de fato é definido como “algo ou alguém que se mostra fragilizado, suscetível a ser ferido, trocado ou ofendido. Aquilo que pode ser derrotado ou destruído”. Por isso, vivemos tentando disfarçar o sofrimento e escondendo nossas dores – tanto físicas quanto emocionais. Achamos que precisamos mostrar que somos fortes, afinal desde a infância fomos podados e ensinados a não dar vazão a sentimentos considerados “inadequados”, como tristeza, raiva e frustração.

Quantas vezes ouvimos: “não foi nada, já vai passar”? Ao longo de décadas de vida, essas tentativas equivocadas de abafar as emoções tiraram de nós a possibilidade de vivenciar o sofrimento, e assim crescemos sem aprender a lidar com ele.

Um dos maiores benefícios do desenvolvimento da inteligência emocional é justamente este: tomar consciência de que existe outra possibilidade, descobrir como acolher e dar o devido espaço para cada emoção.

Se você está com raiva, por exemplo, permita-se sentir raiva; se está triste, irritado ou frustrado, permita-se experimentar plenamente todas essas sensações.

Expressar sentimentos quer dizer que você pode machucar as pessoas? Que você pode fazer coisas não aceitáveis para a família, os amigos, os colegas de trabalho? Não! Mas precisamos entender que todas as emoções são aceitáveis – eventualmente, as reações a elas que não serão; o sentimento de raiva, por exemplo, é aceitável, mas a atitude de agredir alguém não é. Sentir raiva é aceitável, há espaço para sentir, eu enxergo a sua raiva, eu permito que você a sinta e também sinto às vezes.

A vulnerabilidade é evidência de força e coragem, não de fraqueza. Em um relacionamento amoroso, por exemplo, você geralmente hesita em mostrar abertamente ao seu parceiro (a) suas necessidades, inseguranças, medos e defeitos por temer que ele (a) te julgue, reprove ou até abandone? Todas essas possibilidades podem ser aterrorizantes, porém ser vulnerável implica exatamente em compartilhar nossa intimidade de formas que podem levar à rejeição.

Se você tem muita dificuldade em mostrar-se vulnerável, é provável que já tenha sido ferido no passado ao baixar sua guarda. Tente começar devagar, abrindo-se sobre coisas menores até que se sinta confortável para compartilhar coisas mais relevantes e densas. Esse ato corajoso enriquecerá seus relacionamentos interpessoais, intensificando a conexão e a proximidade com quem é importante na sua vida. 

3º passo: Reconhecimento emocional

O reconhecimento das emoções básicas permite que criemos um tipo de mapa de nossas emoções para desenvolver uma mente calma. As emoções humanas se desdobram em uma espécie de linha do tempo. Essa linha, por sua vez, se inicia com um “gatilho” que gera uma experiência emocional e resulta em uma resposta. Quando dominamos nosso universo emocional, é possível perceber claramente como cada uma das cinco emoções básicas se expande de modo mais complexo a partir de diferentes gatilhos, originando respostas variadas dependendo de como nos sentimos.

Há anos diversas pesquisas científicas indicam que emoções mal orientadas exercem efeitos negativos sobre a saúde tanto mental (depressão, ansiedade, pânico etc.) quanto física. Em 2009, uma meta-análise promovida pela University College de Londres revelou a existência de uma forte relação entre emoções de raiva mal orientadas e ataques cardíacos, ratificando que pessoas que sabem administrar bem as próprias emoções têm maior probabilidade de vida longa e socialmente enriquecedora (Pubmed, 2009).

Ao longo de milênios de evolução, desenvolvemos um sistema de proteção e alarme muito eficaz, reagindo com ataque, fuga ou nos escondendo diante de qualquer perigo (ou percepção de perigo). Ainda hoje tentamos evitar ao máximo emoções que consideramos desagradáveis ou dolorosas, porém, no âmbito sentimental, a evasão definitivamente não é uma estratégia bem-sucedida.

A ausência de clareza emocional sobre o que você está sentindo pode provocar diversos tipos de conflitos, principalmente nas suas relações interpessoais. Você pode, por exemplo, ser rude com as pessoas ao seu redor simplesmente porque não percebeu que estava com raiva o dia inteiro por causa de um pequeno aborrecimento específico logo de manhã cedo.

É possível também que você não perceba a tristeza em alguém importante para você e, por isso, não console ou apoie aquela pessoa como gostaria. A capacidade de reconhecer as suas emoções e as emoções dos outros é fundamental para conseguir identificar também as necessidades – dos outros e as suas.

4º passo: Acolhimento como plano de contingência

Podemos controlar, evitar ou fugir de eventos externos, mas é impossível driblar questões interiores, como pensamentos e emoções. Nesse caso, o que acreditamos ser uma solução acaba agravando o problema, paradoxalmente aumentando o nosso mal-estar a médio ou longo prazo.

Na sua vida cotidiana, você tem conseguido mediar de modo equilibrado e justo seus lados racional e emocional? Quando você não coloca na balança o que o seu lado analítico quer dizer e o que o seu lado intuitivo está transmitindo, você acaba tomando decisões 100% frias ou 100% emotivas.

Ao fazer escolhas totalmente frias, você pode acabar passando por cima dos sentimentos, necessidades e desejos dos outros para obter uma suposta vantagem calculista que te afasta das pessoas. Ao tomar uma atitude 100% intuitiva e emocional, por outro lado, você abandona a praticidade e ignora a realidade dos fatos, criando ou piorando uma situação problemática.

Racionalmente, por exemplo, fazer um regime pode parecer fácil: basta comer mais frutas e vegetais e eliminar alimentos calóricos da dieta… Até o momento em que você não teve tempo para almoçar e a empresa fica bem ao lado da melhor confeitaria da cidade. Nesse contexto, a maioria das pessoas falha porque infelizmente não desenvolveu outro tipo de habilidade fundamental: a tolerância ao desconforto.

Geralmente não somos preparados para passar por situações de decepção, raiva e frustação e só administrá-las, ou seja, ficar “parado” nelas. Pode soar contraintuitivo, porém é um equívoco frequente acharmos que, se estamos mal por alguma razão, devemos agir imediatamente para nos sentirmos bem de novo.

Dominar as próprias emoções não significa nunca mais ficar triste ou viver para sempre em permanente euforia. Primeiramente, o cérebro humano simplesmente não é programado para estar satisfeito o tempo todo – rapidamente nos acostumamos com o que conquistamos de bom e queremos mais, um fenômeno conhecido como esteira hedônica.

Além disso, ao demonizar e querer evitar a qualquer custo emoções desagradáveis, privamo-nos de passar pelos dois lados da moeda existencial: só conseguimos apreciar de fato os momentos felizes quando precisamos superar dificuldades para alcançá-los.

As emoções – principalmente as negativas – atuam como um termômetro, indicando como vão as coisas. Cabe a nós saber lê-lo, desenvolvendo a inteligência emocional necessária para navegar pelos mares de incerteza da vida com mais sabedoria.

O processo de exploração, reconhecimento e acolhimento das emoções – próprias e alheias – costuma ser complexo e desafiador. Para você ser bem-sucedido (a) nessa empreitada, a FELLIPELLI oferece dois instrumentos extremamente efetivos: o EQ-i 2.0®, instrumento de Inteligência Emocional mais reconhecido no mundo, cujo questionário mede a interação entre o indivíduo e seu ambiente, avaliando o QE (Quociente Emocional), e o Projeto Emotions, uma abordagem totalmente inovadora e revolucionária da inteligência emocional, fundamentada nas mais recentes descobertas no campo da neurociência.

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Referências bibliográficas

Tema: Projeto Emotions, EQ-I 2.0®.

Subtemas: inteligência emocional; microexpressões; incertezas; vulnerabilidade; reconhecimento.

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