Bem-vindo à Idade Mídia! (Parte 1)14 min de leitura

Como a chegada da Idade Mídia está revolucionando todos os aspectos da vida humana

“Esta será uma Era na qual cada um de nós é um universo à parte, respeitado em sua individualidade e com capacidade ampla de influenciar socialmente.”

– Walter Longo

A falácia do senso comum

“Somos persuadidos a aceitar ou rejeitar as coisas com base no suposto senso comum. Olhe para fora, pense nas palavras ‘obviamente’ e ‘naturalmente’, e você verá que há soluções tão bem conhecidas para cada problema humano – puro, plausível, e errado.”

– H. L. Mencken

A expressão “sabedoria convencional” foi criada pelo economista e filósofo norte-americano John Kenneth Galbraith, mas não representava um elogio: “associamos a verdade à conveniência”, escreveu, “àquilo que mais intimamente combina com o interesse e o bem-estar pessoal ou que mais intensamente prometa evitar grandes incômodos ou uma indesejável reviravolta. Também consideramos altamente aceitável aquilo que mais contribua para aumentar a autoestima”. O comportamento econômico e social, de acordo com Galbraith, “é complexo, sendo mentalmente cansativo entender sua natureza. Por isso, nos agarramos, como se fosse a um bote, às ideias que representam o nosso ponto de vista”. Dessa forma, segundo Galbraith, a sabedoria convencional é fácil de entender, conveniente, cômoda e reconfortante — embora frequentemente falsa (GALBRAITH, 2004).

O conhecimento científico é uma conquista recente da humanidade, socialmente estabelecido há somente algumas centenas de anos atrás. O senso comum, por outro lado, é algo bem mais antigo, tendo surgido já nos primeiros grupos sociais da Antiguidade. Enquanto o senso comum é precário e fortemente ligado a vieses inconscientes e tradições conservadoras, a ciência busca encontrar verdades e produzir novos conhecimentos a partir do uso da razão.

Duncan Watts, sociólogo canadense e pesquisador social na Universidade de Columbia (EUA), ensina em seu livro “Tudo é Óbvio: Desde Que Você Saiba a Resposta” que o senso comum frequentemente nos engana, demonstrando como situações cotidianas possuem explicações muito diferentes do que inicialmente supomos (WATTS, 2012). Para Watts, “o senso comum não é tanto uma visão de mundo quanto é um saco de crenças logicamente inconsistentes, por vezes contraditórias, cada qual parecendo apropriada em um momento, mas sem garantias de que estará certa em qualquer outro instante”.

Ainda de acordo com Duncan, o senso comum nos leva a acreditar erroneamente que conhecemos mais o comportamento humano do que de fato sabemos, o que explica tantas tentativas malsucedidas de prever, administrar e manipular sistemas sociais, econômicos e políticos. Para consertar isso, o autor sugere como primeiro passo desaprender o máximo possível sobre o tema que pretendemos elucidar e, em seguida, fazer uma análise inovadora e personalizada da situação – como veremos mais adiante.

O mito da média

“Essa questão de ‘médio’ não existe no mundo real. E inovar em direção à média é uma receita para o fracasso.”

– Todd Rose

E um TED chamado “O Mito da Média” (ROSE, 2013), o professor da Escola de Educação da Universidade de Harvard e fundador da ONG Center for Individual Opportunity Todd Rose critica a mentalidade padronizadora do sistema escolar global, partindo do princípio de que não existe uma pessoa que representa a média de todas as outras.

Na palestra, ele cita uma pesquisa que, ao escanear vários cérebros, revelou que muitos eram parecidos, mas nenhum era igual à representação do cérebro médio ou padrão. Além desse exemplo, Todd usa como analogia à descoberta, na década de 1950, de que nenhum piloto da Força Aérea norte-americana tinha o tamanho médio adotado para projetar as cabines dos aviões. “Em todos os campos quando olhamos para os indivíduos descobrimos a mesma coisa: não existe uma célula média, não existe um câncer médio, nem um comportamento médio”, afirma o professor. 

Figura 1.0 Average.

Imagine quantos talentos foram, são e serão desperdiçados devido ao velho paradigma de fazer tudo igual para todos, ignorando peculiaridades, preferências, forças e fraquezas particulares?

Por volta de 350 a.C., o filósofo grego Aristóteles já dizia: “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”. Finalmente, porém, avizinha-se uma enorme revolução no modo de educar, trabalhar, comunicar, consumir e viver em geral.

Individualidade: entre o medieval e o midieval

“Se a perda da individualidade é de certa forma imposta ao ser humano, o artista lhe oferece uma revanche e a ocasião de encontrar-se.”

– Lygia Clark

Os cientistas ainda não sabem ao certo o tamanho do universo, mas, seja ou não infinito, ele definitivamente não é pequeno. O que cada um de nós significa dentro dessa imensidão? O que nos diferencia? De acordo com a psicóloga norte-americana Judith Rich Harris, mesmo em uma população mundial de 7,7 bilhões não há duas pessoas iguais (HARRIS, p. 382):

“A personalidade varia em parte porque as pessoas têm genes diferentes, em parte porque até pessoas com os mesmos genes têm cérebros ligeiramente diferentes, em parte porque até pessoas com os mesmos genes têm diferentes vivências sociais, e em parte porque a variação e a divisão de tarefas são propriedades emergentes de grupos humanos”.

Individualidade é a combinação singular de elementos que torna cada ser humano um exemplar único e insubstituível. A despeito disso, a maioria das empresas e instituições ainda insiste em enquadrar pessoas distintas em categorias gerais, aplicando-as como camisas de força para adequar a uma determinada média. Assim sendo, a sociedade de hoje ainda se resume a um recorte das individualidades conforme as medidas da mediocridade-padrão.

Figura 1.1 Individualidade.

Em sua obra “A Individualidade numa Época de Incertezas”, o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman levanta uma série de questões instigantes sobre o conceito de individualidade no mundo contemporâneo (BAUMAN, 2018):

“Como o indivíduo percebe sua posição no mundo? Somos determinados por nossa herança genética, circunstâncias sociais e preferências culturais – e apenas levados a acreditar que tomamos nossas próprias decisões? Quem é responsável por isso? Os outros indivíduos são do mesmo modo determinados?”

Em sua visão revolucionária da vida na pós-modernidade, Bauman previa grandes transformações nesse cenário, antecipando o surgimento de um mundo no qual “cabe ao indivíduo descobrir o que é capaz de fazer, esticar essa capacidade ao máximo e escolher os fins a que essa capacidade poderia melhor servir – isto é, com a máxima satisfação concebível” (BAUMAN, 2001, p. 74).

Essa visão de um futuro próximo é compartilhada por Walter Longo, renomado administrador de empresas, publicitário, empreendedor digital e palestrante internacional. Longo narra em seu livro “O Fim da Idade Média e o Início da Idade Mídia” a transição da Idade Média para a chamada Idade Mídia; trata-se, segundo Longo, de transformações radicais nos relacionamentos humanos e práticas sociais (LONGO, 2019).

Historicamente, a Idade Média (476 d.C. – 1453) foi um período de retrocessos, uma fase de dominação religiosa na qual todas as manifestações artísticas e descobertas científicas declinaram e o conceito de indivíduo simplesmente não existia. De acordo com o historiador medievalista russo Aron Gurevitch, durante a Idade Média o homem buscava o anonimato e não enxergava a si mesmo como uma personalidade autônoma, mas sim pertencente a um conjunto dentro do qual desempenhava uma função específica. Na sociedade medieval, os papéis sociais eram rígidos e absorviam totalmente o indivíduo; além disso, qualidades hoje tidas como essenciais no mercado de trabalho não eram procuradas e menos ainda estimuladas (GUREVITCH, 1991. pp. 350-362)

“A qualidade de que o indivíduo devia fazer prova não era nem a originalidade, nem a distinção em relação aos outros, mas, muito pelo contrário, a ativa e maior participação possível no grupo social na comunidade, na ordo, a ordem estabelecida por Deus. (…) O homem medieval não se concebia como o centro de ações unificadas e dirigidas em direção a outras pessoas (…) assim um monge, ou qualquer outra pessoa falando de si, define-se segundo as diferentes categorias, o pecador, o homem justo, o homem da Igreja, etc., mas, em geral, não procura por em evidência os seus traços verdadeiramente pessoais.”

Walter Longo alerta, no entanto, que o verdadeiro fim da Idade Média – como época de sociedade de massa e padronização da personalidade humana – só está ocorrendo agora, em nossa geração. Até hoje, o ser humano era dimensionado pela média – média de idade, de interesse, de audiência.

Com a chegada da Idade Mídia, cada pessoa se torna protagonista e influenciadora digital, compartilhando conhecimentos e experiências nos âmbitos pessoal, social e corporativo. 

Isso é possível graças a inovações disruptivas como o Big Data Analytics, a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas (IoT), que nos permitem abandonar de vez o mass customization para ingressar no true individualismo. Com esses avanços tecnológicos e todas as suas possibilidades, atualmente conseguimos identificar e desenvolver aspectos únicos de nossa própria personalidade de um modo inédito. Nesse contexto, a complexidade individual em todas as áreas da vida ganha espaço e importância.  

Uma inovação disruptiva é aquela que muda completamente algum setor ou segmento da economia, partindo do princípio de que todo negócio sólido no mercado pode um dia ser ameaçado e superado por uma startup muito menor, porém dotada de uma ideia revolucionária.

Clayton Christensen, professor de Administração na Universidade de Harvard e idealizador do conceito da inovação disruptiva, explica (CHRISTENSEN, 2011):

“A inovação disruptiva não é aquela que pega produtos bons e os transforma em muito melhores, mas sim aquela que transmuta um produto que historicamente era tão caro, e tão complicado, que apenas algumas pessoas com muito dinheiro e muita habilidade tinham acesso a ele. Uma inovação disruptiva torna os produtos muito mais baratos e acessíveis, fazendo com que uma parte muito maior da população possa ter acesso a ela.”

Ele prossegue: “No início, a primeira manifestação da tecnologia digital era um computador mainframe que custava vários milhões de dólares, e levava anos para treinar uma pessoa para operar uma coisa daquelas. Isso significa que, naquela época, as maiores corporações e as maiores universidades só conseguiam ter uma unidade de cada. Mas aí houve uma sequência de inovações, que levaram o mainframe para um mini, um mini para um desktop, um desktop para um laptop e agora para um smartphone. Isso é a tecnologia democratizada ao ponto de todo mundo ter acesso a ela ao redor do mundo, e ela fica cada vez melhor. Foi muito difícil para os pioneiros da indústria captar essas novas ondas no início.”

Christensen finaliza dizendo que os produtos disruptivos costumam ser “mais baratos, mais simples, menores e, frequentemente, mais convenientes de usar”. São exemplos claros de tecnologia disruptiva: Netflix, Whatsapp, Wikipedia, Uber e Airbnb.

Para Longo, o ano de 2007 trouxe um divisor de águas em termos de inovação: o lançamento do primeiro smartphone (o primeiro iPhone da Apple, no caso). A partir daí, os celulares alcançaram um novo patamar no mundo dos eletrônicos, virando simultaneamente câmera, game, lanterna, agenda, computador, rede social, aplicativo, mapa e… telefone!  

Figura 1.2 Steve Jobs e o primeiro iPhone: inovação disruptiva.
Fonte: https://www.theguardian.com/technology/2007/jan/10/news.business

Famoso publicitário e gestor empresarial, Walter Longo descreve o término da Idade Média e o começo da Idade Mídia em sua palestra no lançamento da Welcome Tomorrow 2019 (WTW19). Ao longo da apresentação, Longo explica como os recentes avanços tecnológicos vêm promovendo a valorização da individualidade e a meritocracia nos planos social e corporativo:

Para saber mais:

  • Rebel Ideas: The Power of Diverse Thinking. Matthew Syed. Editora John Murray, 2019.
  • Dominando as tecnologias disruptivas: aprenda a compreender, avaliar e tomar melhores decisões sobre qualquer tecnologia que possa impactar o seu negócio. Paul Armstrong. Editora Autêntica Business, 2019.
  • 6 competências para surfar na transformação digital. Andrea Iorio. Editora Planeta Estratégia, 2019.
  • Disrupção e Inovação: Como sobreviver ao futuro incerto. Joichi “Joi” Ito & Jeff Howe. Alta Books, 2017.
  • BOLD: Oportunidades Exponenciais. Peter H. Diamandis & Steven Kotler. Alta Books, 2019.

Referências bibliográficas

Tema: Indústria 4.0

Subtema: descobrir como a chegada da Idade Mídia está revolucionando todos os aspectos da vida humana.

Objetivo: Autodesenvolvimento, Indústria 4.0, Desenvolvimento Organizacional, Coaching, Coaching nas Empresas.

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