As rotas neuroemocionais do estresse13 min de leitura

“Viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz a diferença.”

– Benjamin Franklin

Será que você está estressado demais e não percebe? O estresse é um inimigo muitas vezes discreto e age sorrateiramente, abarcando diversas áreas de nossas vidas. As pessoas frequentemente sequer imaginam o acúmulo de estresse que possuem até serem conduzidas às pressas ao hospital ou estourarem com cônjuges, parentes, amigos ou colegas de trabalho.

Pare e reflita um pouco sobre a sua rotina diária. Você sai do trabalho exausto, chega em casa esgotado e sem ânimo para fazer nada? No meio de uma tarefa doméstica você sente que sua disposição simplesmente acaba? Cumprir suas obrigações cotidianas tem sido mais difícil do que antes, como se fosse necessário um esforço muito maior para concluir uma atividade simples? 

O estresse é um grande ladrão de energia. Em altos níveis, ele pode facilmente impossibilitar uma vida normal, mantendo nosso organismo em contínuo estado de alerta e sem conseguir descansar como deveria.

Hans Selye (1907-1982), famoso médico austro-húngaro, dizia: “O conceito científico de estresse teve a sorte de ser incorporado à linguagem cotidiana, mas também o azar de ser muito mal interpretado”. 

Na década de 1930, Selye introduziu o conceito de estresse no campo da saúde ao verificar em pacientes acometidos por doenças diversas um conjunto de sintomas em comum, como o desânimo, a fadiga e a hipertensão arterial, representando “um desgaste geral do organismo”, ou seja, um esforço de adaptação do corpo humano para enfrentar situações que afetam seu equilíbrio interno (SELYE, 1956).

Muita gente se confunde ou simplesmente não sabe reconhecer e distinguir o que sente, atribuindo ao estresse emoções como irritação ou frustração. Ao dizer “estou estressado”, a maioria das pessoas deseja expressar uma sensação de mal-estar, raiva e cansaço, sem sequer suspeitar que sentir-se criativo, bem e satisfeito com o trabalho desempenhado também é resultado do estresse.

Etimologicamente, a palavra “estresse” deriva do verbo latino stringere,cujo significado é comprimir, exercer pressão ou apertar.O neologismo stress ou estresse foi usado primeiramente na Física para representar o grau de deformidade sofrido por um determinado material (metal) após sofrer alguma tensão.

Embora seja frequentemente visto como um fator negativo e causador de problemas, o estresse pode ser benéfico quando relacionado a atividades intensas, mas também prazerosas e gratificantes. Quando ele é positivo, recebe o nome de eustresse. Mas se for negativo, é chamado de distresse. Embora ambos causem as mesmas reações fisiológicas, a maior diferença é emocional: o eustresse gera motivação e satisfação, enquanto o distresse faz com que o indivíduo se sinta intimidado e ameaçado. 

Há uma regra simples para avaliar o equilíbrio entre o bom e o mau estresse em sua vida: se as exigências da rotina diária estão mantendo seu interesse aguçado, infundindo em você motivação e uma sensação de euforia, sem desgastar seus níveis de energia, é possível presumir que esteja experimentando o eustresse. Por outro lado, se as pressões estiverem te deixando cansado, ansioso, distraído, confuso ou irritado, provavelmente trate-se de distresse.

A finalidade do estresse é sempre a mesma: adaptar a pessoa a uma nova situação. Diante de um agente estressor, experimentamos reações fisiológicas, emocionais e comportamentais, que podem ser brandas ou não. As reações de estresse são muito primitivas e mediadas pelo sistema reticular ascendente, que é um sistema de múltiplas conexões cerebrais, composto por noradrenalina, dopamina, serotonina e cortisol, dependendo da fase de estresse que o indivíduo estiver passando. Todo esse aparato neurobiológico e químico tem como objetivo garantir a sobrevivência do indivíduo.

Vivemos apenas 1% da história da humanidade no período conhecido como civilização, ou seja, nossos mecanismos internos de reação ao estresse evoluíram para um tipo de tarefa completamente diferente das que realizamos hoje. O estresse atua como um elemento “perturbador” da ordem interna através da ativação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal – conhecido por HPA -, um dos principais mecanismos que sinalizam ao corpo e à mente os perigos do ambiente externo. Esse mecanismo tem como principal função elevar as chances de sobrevivência em um meio hostil, comunicando ao organismo a necessidade de liberação do cortisol.

Em suma, o estresse surge quando nos defrontamos com uma situação desafiadora, problemática ou perigosa que a princípio nos parece impossível gerir de modo eficaz. Na maioria das pessoas, as seguintes situações produzem uma resposta de estresse:

AmeaçaSentimento
Ausência ou insuficiência de controleImpotência: não posso fazer nada para solucionar o problema ou melhorar a situação.
ImprevisibilidadeMedo: Não faço ideia do que acontecerá.
NovidadeDesconforto: nunca vivenciei nada parecido com isso.
Ameaça ao egoInsegurança: sinto-me testado e duvido das minhas capacidades.
Figura 1.0 Ameaça/sentimento.

Exemplos:

  • Você está a caminho de uma reunião importante e fica detido em um engarrafamento de trânsito – > Falta de controle.
  • O chefe da empresa em que você trabalha possui uma personalidade instável e todo dia aparece com uma nova surpresa -> Imprevisibilidade.
  • Você será pai/mãe pela primeira vez -> Novidade.
  • Um novo colega questiona seus métodos de trabalho -> Ameaça ao ego.

De acordo com a Associação Médica Americana (AMA), o estresse é a causa básica de mais de 60% de todas as doenças e enfermidades nos Estados Unidos. Ele ainda está relacionado a sintomas variados como indisposição geral, alterações de humor, insônia, dores de cabeça, fadiga crônica, ansiedade, irritabilidade, pânico, dores nas costas, tensão muscular e batimento cardíaco acelerado. No Brasil, segundo levantamentos do Ministério da Saúde, todo ano 132 mil infartos são provocados pelo estresse cotidiano.

O paradoxo do estresse

“O estresse crônico ativa exageradamente o hipocampo, que, por sua vez, sofre atrofia por hiperestimulação, causada pelo excesso de liberação de cortisol. Quanto menos conexões houver entre os neurônios do hipocampo, menos consciência e, portanto, menos capacidade de solucionar os problemas do dia a dia. Esse estado, por si só, aumenta o volume de cortisol liberado e sobrecarrega o hipocampo.

Por isso, quanto mais vivermos, mais chances teremos de acabar num processo de demência, que é a falência total do hipocampo. Porém, antes disso, iremos sofrer de sintomas depressivos causados pela alteração dos neurotransmissores, como resultado paralelo do acúmulo de cortisol. No nosso dia a dia, períodos de insegurança vão causando pequenos picos de cortisol que, ao longo dos anos, acumulam-se, levando ao esgotamento da capacidade de readaptação. O homem como ser consciente tem uma grande vantagem adaptativa, mas sofre com a percepção exagerada das armadilhas que a própria existência cria” (CESAR, KLEPACZ & RINPOCHE, 2011)

No trabalho os dados também são alarmantes: o Instituto Americano de Estresse (AIS) aponta o estresse como responsável por um prejuízo anual de 300 bilhões de dólares na indústria norte-americana, em decorrência das faltas no trabalho, acidentes, despesas médicas, seguros e indenizações (AIS, 2020); paralelamente, pesquisas da Associação Americana de Psicologia (APA) revelam que o trabalho é uma fonte de estresse importante para 70% dos americanos (APA, 2020).

Agentes estressores são tão potentes quanto os microorganismos e a insalubridade no desencadeamento de doenças. No ambiente laboral, um dos maiores agravantes do estresse é a limitação que a sociedade impõe quanto às manifestações de angústias e frustrações. Diante dessas regras e normas sociais, as pessoas tornam-se prisioneiras do politicamente correto, forçadas a aparentar um comportamento incongruente com seus verdadeiros sentimentos de agressão ou medo.

Figura 1.1 Do estresse à doença: um exemplo típico.

Nossos próprios pensamentos podem gerar estresse e prejudicar nossas vidas, provocando emoções dolorosas. Eles atuam como um “botão vermelho” que, ao ser apertado, desperta uma emoção quase sempre acompanhada de reações físicas. Esses pensamentos são automáticos, involuntários e destinados a nos colocar em estado de alerta contra supostos perigos. Suas origens, por sua vez, são nossa educação, as diferentes experiências positivas e negativas ao longo da vida e as influências de nossos familiares e amigos próximos.

O estresse, especificamente, é resultante de uma equação muito pessoal:

Figura 1.2 Equação cognitiva do estresse.

Conforme essa equação, o estresse será alto se a avaliação interna da ameaça apresentada for forte e/ou se a percepção de sua própria capacidade para enfrentá-la for fraca.

Tem alguém “apitando” aí?

No trabalho, o acrônimo APTAR pode ser uma ferramenta útil para auxiliar na identificação de indivíduos que estão estressados e precisam de atenção especial da equipe:

  • A = Aparência: a pessoa parece estar sempre cansada? Tem ganhado ou perdido peso recentemente?
  • P = Performance: são indícios de estresse tanto pioras no desempenho profissional quanto o esforço em excesso.
  • T = Tensão: o mesmo fator que motiva algumas pessoas pode desencadear aumento de tensão e estresse em outras.
  • A = Alterações emocionais: a pressão excessiva está diretamente ligada a variações bruscas de humor e comportamento.
  • R = Relacionamento: problemas e conflitos constantes nas relações interpessoais são sinais claros de estresse.

Estratégias antiestresse

“Preocupações não nos tiram os problemas de amanhã, elas tiram-nos a paz de hoje.”

~Sidarta Gautama (Buda)

Para atingir o equilíbrio, é necessário antes de tudo aprender a vivenciar as experiências cotidianas sem se deixar contaminar pelos excessos de emoções. Sem ser oito ou oitenta, evitando extremos e radicalismos ao lidar com os desafios diários. Desenvolver lucidez e serenidade diante de situações tensas e conflitantes não é tarefa fácil, mas pode tornar-se muito mais simples e até prazerosa com auxílio profissional competente. Para começar, seguem algumas dicas básicas:

  • Tomada de decisão

Ao ser confrontado com um problema, não ecoe a preocupação incessantemente. Em vez disso, enfrente-o de uma vez por todas e tome uma decisão. A angústia e a maior parte das preocupações são causadas pela incapacidade de tomar um rumo.

Ao escolher seu caminho, siga-o. Sua decisão nem sempre será correta, mas qualquer ação positiva é melhor do que nada. Não cometa o erro de julgar-se infalível.

  • Pensamento x preocupação

Descubra em que ponto o pensamento termina e a preocupação começa. Preocupar-se não é sinônimo de pensar – o pensamento é construtivo, enquanto a preocupação é destrutiva.

  • Partindo para a ação

Se há algo que pode ser feito imediatamente para solucionar um problema que te incomoda, faça-o. É importante tomar todas as medidas possíveis para superar a questão e se preocupar mais com ela.

  • Estado presente

Muitas pessoas são incapazes de se encantar com o presente, transformando as próprias vidas em um mar de promessas futuras sem possibilidade de uma verdadeira realização interior. Ter sonhos é ótimo, mas viver deve ser ainda melhor – afinal, a realidade imediata é a única coisa que realmente temos em nossas mãos.

  • Paciência contra o excesso de expectativas

Frequentemente somos pressionados pela nossa própria expectativa dos acontecimentos. Ficamos tensos e autocríticos demais por não obter os resultados esperados, deixando todos os “eu deveria” ressoarem em nossa mente, bloqueando a sintonia com nosso ritmo interno. Nesse momento é importante se distanciar brevemente de nossos julgamentos e expectativas, aprendendo a aceitar os limites – próprios e alheios. Ao desejar mais do que de fato conseguimos ter ou fazer no momento, acabamos nos sentindo diminuídos na tentativa de ocupar um espaço que ainda é maior do que o nosso tamanho atual.

É interessante pensar que muitas vezes sofremos por superestimar as nossas próprias capacidades. Imaginamos suportar uma carga de estresse que, na realidade, não conseguimos aguentar. E, ao insistir em ultrapassar os limites do que é humanamente possível, mergulhamos em uma sensação crônica de insuficiência e inadequação.

  • Autorresponsabilidade

A expansão do autoconhecimento só é possível quando o indivíduo torna-se capaz de assumir a responsabilidade por tudo o que lhe acontece. O estresse muitas vezes se perpetua porque não há aprendizado com os fracassos e derrotas vivenciados – ao contrário, sempre existe uma justificativa ou explicação para as experiências negativas. A transformação de si mesmo e a consequente interrupção do ciclo do estresse são impossíveis enquanto houver um fato, situação, processo ou pessoa culpada por tudo de ruim que nos acontece.

Isolamento, medo do desemprego, crise econômica e ansiedade em relação às mudanças vêm sendo fatores intensamente vivenciados por muitos de nós nos últimos meses. A quebra da rotina imposta pela pandemia de Covid-19 nos forçou a desligar o piloto automático e atualizar nosso modo de agir e, para você ser bem-sucedido (a) nessa empreitada, a FELLIPELLI oferece o Projeto Emotions, uma abordagem totalmente inovadora e revolucionária da inteligência emocional, fundamentada nas mais recentes descobertas no campo da neurociência. Consulte-nos!

Referências bibliográficas

  • SELYE, Hans. The Stress of Life. New York: McGraw-Hill, 1956.
  • CESAR, Bel; KLEPACZ, Sergio & RINPOCHE, Lama Michel. O sutil desequilíbrio do estresse: conversas entre uma psicóloga, um psiquiatra e um lama budista. Editora Gaia, 2011.
  • AIS, 2020. Disponível em: https://www.stress.org/ Acesso em: 08/07/2020.
  • APA, 2020. Disponível em: https://www.apa.org/ Acesso em: 08/07/2020.

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