A crise da motivação intrínseca: Como encontrar significado em um mundo vazio?11 min de leitura

A importância de identificar e investir na motivação intrínseca de cada indivíduo para promover inovação.

Por Adriana Fellipelli para o Linkedin

“Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”

– Fernando Pessoa

Qual é o sentido da sua vida? A maioria de nós ainda não tem uma resposta clara para essa pergunta – e muitas pessoas sequer se questionam em meio a uma rotina sempre atribulada e caótica. No entanto, há uma parte dentro do cérebro de cada um de nós que se assemelha a um míssil termoguiado, buscando, por meio de sensações e instintos, um propósito grande e real. Essa parte deseja, acima de tudo, interromper o zigue-zague frenético do seu cotidiano e captar toda a compreensão sobre o que é de fato importante e valioso para você.

Figura 1 Momento para captar o que realmente importa.

Em 1937, o influente escritor Napoleon Hill, que assessorou dois presidentes americanos, Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt, afirmou: “Tudo o que a mente consegue conceber e acreditar, o corpo consegue atingir” (Hill, 1937). Ele não dispunha de todos os avanços científicos e recursos tecnológicos que hoje possuímos, mas sua intuição estava certa: a ciência atual é capaz de nos mostrar onde e como o sucesso age no cérebro.

Curiosidade:

O Sistema Ativador Reticular (SAR) é um feixe de fibras nervosas localizado no tronco cerebral dos mamíferos. Descoberto em 1947 por cientistas italianos, só hoje estamos compreendendo melhor seu complexo funcionamento, caracterizado por um filtro que seleciona e processa todos os dados sensoriais que o cérebro recebe do mundo exterior.

O SAR atua como um centro de triagem, avaliando as informações que chegam, organizando-as sob a forma de mensagens e levando instruções do consciente ao inconsciente. Ele reage a seu nome e a qualquer coisa que ameace sua sobrevivência, além de controlar seu sistema de crenças e só reconhecer e selecionar dados que o sustentam.

Em outras palavras, é o seu sistema de crenças que determinará se o SAR trabalhará a seu favor ou contra você. Quem acredita que só pode ganhar dinheiro trabalhando exaustivamente, por exemplo, só enxergará situações que confirmem essa crença e viverá como se isso fosse verdade – o SAR eliminará qualquer possibilidade de ganhar bem sem precisar se matar de trabalhar.

Para o SAR jogar a seu favor, é preciso antes de tudo investir em autoconhecimento, explorando suas crenças mais profundamente enraizadas para então ser capaz de redefini-las e modificar toda a sua programação mental.  

O escritor americano Walker Percy certa vez disse que a maior tragédia da vida moderna é que tudo é interessante, porém nada parece se tornar profundamente importante. De fato, a neurociência já demonstrou que o nosso cérebro se sente oprimido pelo excesso de alternativas “interessantes” e, por isso, acabamos escolhendo a mais conhecida e previsível, por menos inspiradora que ela seja.

Não é fácil, portanto, optar por atitudes e propósitos de fato apaixonantes e significativos, mas é exatamente essa escolha que pode mudar sua vida de apenas interessante para realmente importante.

Seu cérebro não é o único vilão nessa história; o mundo contemporâneo é regido por um sistema administrativo que atrofia e castra as pessoas diariamente, impondo rotinas, metas e recompensas padronizadas para indivíduos com personalidades e anseios diferentes. Nas palavras do consultor de gerenciamento de qualidade William Edwards Deming:

“Nosso sistema predominante de administração destruiu as pessoas. Elas nascem com uma motivação intrínseca, autorrespeito, dignidade, curiosidade em aprender, alegria na aprendizagem. As forças da destruição começam quando somos crianças – um prêmio pela melhor roupa de Halloween, notas na escola, estrelinhas douradas – e assim por diante até a universidade. No trabalho, as pessoas, as equipes e as divisões são ranqueadas, com recompensas para os melhores e punição para os piores. A administração por objetivos, quotas, pagamentos de incentivos, planos de negócios, se colocados separadamente, para cada divisão, geram perdas ainda maiores, desconhecidas e que nos é impossível calcular.”

Para refletir…

Motivação intrínseca refere-se essencialmente ao impulso interno de uma pessoa para executar uma ação puramente devido à satisfação e ao prazer que obtém dela. Assim, enquanto a motivação extrínseca corresponde a estímulos originários de influências externas, como dinheiro ou outros tipos de recompensas, a motivação intrínseca está diretamente ligada ao senso de propósito individual.

Dan Pink, especialista em ciência comportamental e autor do best-seller “Drive”, explica em suas palestras a necessidade de entender e promover a motivação intrínseca, eliminando a “incompatibilidade entre o que a ciência sabe e o que as empresas fazem”. Recompensas externas não são os melhores motivadores para os funcionários – eles obviamente desejam cobrir suas necessidades básicas, como moradia e alimentação, porém quando essas demandas são atendidas, os motivadores extrínsecos deixam de fazer efeito.   

As recompensas extrínsecas tradicionais funcionam bem para motivar os trabalhadores a desempenhar tarefas repetitivas e desinteressantes, porém costumam ser inúteis quando aplicadas a funções que exigem inovação.

Se as empresas desejam ir além do atual panorama de estagnação, portanto, identificar e investir na motivação intrínseca de cada profissional é o único caminho a seguir.

Sempre que você decide que algo é essencial para suas possibilidades mais profundas, uma série de ações neuronais é desencadeada para alcançar o que você realmente quer. O córtex sensorial em cada um dos hemisférios cerebrais capta o input daquele propósito e o registra como importante, enquanto o córtex motor prepara toda a sua fisiologia para a ação e o hipocampo integra inputs multissensoriais oriundos de todas as direções, guiando você para o objetivo.

Apesar de toda essa mobilização mental, você não se torna uma máquina de gerar e perseguir propósitos da noite para o dia. Há várias outras funções cognitivas e hábitos que podem te desviar do caminho, sufocando seus projetos mais significativos e arrastando-o de volta para a sua simplória zona de conforto. Para tomar e persistir no rumo certo, portanto, é necessário intervir conscientemente nesses processos cerebrais.

Os três passos da motivação intrínseca

“A vida nunca se torna insuportável devido às circunstâncias, e sim por falta de significado e propósito.”

– Viktor Frankl
  1. Viver no presente

A maioria de nós gasta tempo demais acumulando tensão sobre o que deveríamos estar fazendo, “masturbando-nos” pensando sem parar no que deveríamos ter feito, em vez de aproveitar o que realmente desejamos fazer no momento presente.

Diante do confinamento imposto pela pandemia de Covid-19, por exemplo, em vez de pararmos coletivamente para pensar em como cuidar de nós mesmos para não perder a cabeça, as redes sociais rapidamente se encheram de dicas de cursos gratuitos para aprimorar a nossa formação, aprender um novo idioma e até sugestões de atividades físicas indoor. Embora em geral não soubéssemos bem como lidar com essa nova situação, todos abraçamos a mesma convicção: “aproveitar a quarentena para fazer algo útil e não passar o dia inteiro sem fazer nada”.

Figura 1.1 “Fazer nada”: uma forma de proporcionar reflexões e insights maravilhosos.

Mas o que exatamente é “não fazer nada”? Grande parte do mal-estar experimentado por tantas pessoas durante o isolamento social foi causada pelo hábito tão negativo quanto comum de chamar de “fazer nada” às coisas mais simples, porém capazes de proporcionar relaxamento, reflexões e insights preciosos: se sentar no sofá para assistir a uma série interessante, meditar ou ler um bom livro.

A busca por significado na vida implica nos comprometermos com nós mesmos – não deixar nossas necessidades, mesmo as aparentemente triviais, sempre para amanhã, dar-nos tempo de qualidade, nos permitir, e nos oferecer novas oportunidades para descobrir e experimentar.

  • 2. Ser “irrealista”

Em “A Study of History”, um clássico tratado de 12 volumes sobre a gênese e o desenvolvimento da vida humana comunitária, o historiador britânico Arnold Toynbee analisou a trajetória de 26 civilizações, concluindo que as sociedades só avançam quando as chamadas “minorias criativas” inspiram esforços sem precedentes para solucionar problemas muito complicados. Inversamente, “as civilizações em declínio são constantemente caracterizadas por uma tendência à padronização e à uniformidade”.

De fato, pesquisas sobre homens e mulheres altamente bem-sucedidos em todos os campos de atuação revelam que eles invariavelmente têm as maiores aspirações, apesar de os outros frequentemente os ridicularizarem como “sonhadores”.

A maioria das pessoas é incapaz de vislumbrar o futuro, atolando-se em velhos hábitos e limitações e atrofiando o prosencéfalo. O neurocirurgião russo Alexander Luria foi pioneiro nos estudos sobre essa zona cerebral, descobrindo que, quanto mais olhamos para a frente a cada dia, para além de nossa lista imediata de coisas a fazer, vislumbrando o trabalho e a vida que gostaríamos de conquistar, mais ativadas são as áreas mais importantes do prosencéfalo.

  • 3. Correr sua própria corrida (de forma colaborativa)

Nunca conseguimos o que poderíamos conseguir na vida se estamos o tempo todo correndo a corrida de outra pessoa – a corrida dos amigos, do chefe, da sociedade em geral…

Para conquistar mais propósito e, consequentemente, mais sucesso, você precisa parar e identificar a sua própria melhor corrida – aquela na qual cada grama de suas habilidades, paixões e forças pode ser usada na busca dos melhores resultados pessoais possíveis.

Só então você poderá “alinhar corridas” com as pessoas certas em uma equipe, estabelecendo uma direção específica na qual todos ganham, contribuindo de modo singular com o melhor de si.

Embora o cérebro ainda seja guiado por uma série de impulsos reacionários de “eu primeiro”, ele também apresenta uma forte tendência à colaboração que pode e deve ser explorada. Para tanto, defina alguns pontos:

  • Qual é a sua melhor corrida?

Qual é a corrida que você está correndo neste exato momento? Ela é verdadeiramente sua ou de outra pessoa? É uma corrida em busca dos seus maiores objetivos ou das metas de terceiros? Essa é a melhor corrida que você consegue correr?

  • Qual é a melhor corrida dos seus principais aliados?

Quais são as melhores corridas das pessoas-chave para o seu sucesso no próximo ano? O objetivo delas é semelhante ao seu? Como a melhor corrida delas se relaciona com a sua e como elas se diferenciam?

  • Como essas corridas podem ser integradas?

Ao alinhar cada uma dessas corridas com os melhores resultados futuros possíveis – os resultados realmente motivadores para cada um de vocês – qual é o panorama geral? O que você pode fazer para se ajustar a esse processo?

A motivação intrínseca, a inteligência emocional e o autoconhecimento formam juntos formam um tripé essencial para alcançar a autorrealização e o verdadeiro sucesso.

Sabendo disso, a FELLIPELLI oferece instrumentos extremamente efetivos para desenvolver essas capacidades:  o Projeto Emotions, uma abordagem inovadora das emoções que pode ser aplicada em todos os contextos da vida: pessoal, profissional, relacional, ao resolver um problema, enfrentando situações desafiadoras, etc.; o EQ-i 2.0®, assessment mais respeitado do mundo para a compreensão e o desenvolvimento da inteligência emocional; o MBTI®, instrumento de personalidade mais amplamente utilizado no mundo, com cerca de 2 milhões de relatórios emitidos ao ano; e muitos outros.

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Referências bibliográficas

  • HILL, Napoleon. Pense & enriqueça. 1937; Editora Best Seller, 2020.
  • WOLFF, Francis. Nossa humanidade: De Aristóteles às neurociências. Editora Unesp, 2013.
  • DEMING, W. Edwards. The Essential Deming: Leadership Principles from the Father of Quality. McGraw-Hill Education, 2012.
  • PINK, Daniel H. Drive: The Surprising Truth about What Motivates Us. Riverhead Books, 2011.
  • TOYNBEE, Arnold J. A Study of History. Oxford University Press, 1947.
  • SCHWARTZ, David J. The Magic of Thinking Big. Vermilion, 2016.
  • LURIA, Alexander R. Fundamentos de Neuropsicologia. Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

Tema: Autoconhecimento

Subtema:  Os 3 passos da motivação intrínseca para alcançar o seu propósito.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento de Equipe, Coaching, Coaching nas Empresas.

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