Síndrome troféu: o reinado da mediocridade14 min de leitura

Você é agente ou vítima do seu próprio destino?

Entendendo a diferença entre meritocracia e mediocracia, para desenvolver uma cultura verdadeiramente meritocrática na vida e no trabalho.

Por Adriana Fellipelli para o Linkedin

 “Só a ignorância aceita e a indiferença tolera o reinado da mediocridade.”

– José de Alencar

Recentemente, possuir uma autoestima elevada virou febre na psicologia – acreditava-se que, como pessoas confiantes geralmente alcançam melhores resultados e lidam melhor com problemas, aumentar a autoestima da população em geral traria benefícios sociais tangíveis, como queda na criminalidade, alto desempenho acadêmico, criação de novos empregos e redução de déficits orçamentários.

De fato, ser autoconsciente e bem resolvido é uma vantagem e tanto na vida, porém o caos se instaurou quando métodos artificiais passaram a ser usados para tentar alimentar uma suposta autoconfiança tão frágil e distorcida quanto os meios para alcançá-la – afinal, pensavam: “para que investir em complexos processos de autoconhecimento, quando podemos simplesmente formar uma bolha instantânea de pessoas iludidas quanto às próprias potencialidades e resultados?”.

Assim, professores são instruídos a dar notas altas e aprovar automaticamente a todos, mesmo os piores alunos, enquanto troféus e prêmios por participação são distribuídos  indiscriminadamente para atividades obrigatórias e banais. Já entre os adultos, livros de autoajuda, seminários e palestras motivacionais pregam que cada um de nós está “predestinado” a uma vida excepcional, mesmo sem fazer qualquer esforço por isso; trata-se de um “direito adquirido”, e para tomar posse dele basta mentalizar e acreditar com todas as forças na frente do espelho pela manhã.   

O resultado desse verdadeiro delírio coletivo não poderia ser outro: uma geração inteira de pessoas arrogantes, frustradas e raivosas pelo descumprimento da “promessa social”, ou seja, por não terem o sucesso de Cristiano Ronaldo nem a fortuna de Bill Gates.

Meritocracia representa, basicamente, o que aprendíamos ainda na infância: se fizer a lição de casa, pode brincar; se comer tudo, ganha sobremesa. Contrariando a cultura de honra ao mérito, no entanto, a mediocracia corresponde a um paradigma viciado de vivência, à transmissão da crença de que não é necessário esforço nem superação para conquistar o que se deseja. Tal expectativa, em vez de formar seres humanos dedicados e diligentes, resulta em indivíduos sem resiliência ao fracasso e ressentidos com os pais, o chefe, os colegas, o cônjuge… A lista de “culpados” é infinita.

Figura 1.0 Síndrome troféu.

Na infância, é comum que algumas crianças comecem a andar e falar mais cedo, assim como a demonstrar maior talento para a música, para os esportes ou matemática. No entanto, diversos grandes atletas, artistas, cientistas e empresários só obtiveram seus melhores resultados mais tarde, quando muitos já desconfiavam de seu potencial e sugeriam que desistissem ou tentassem outra coisa. Nesses casos, a dedicação e a identificação das necessidades do público foram responsáveis pelo mérito pessoal.

A chamada síndrome troféu ou tentativa de igualar artificialmente habilidades e desempenhos com a mediocridade, oferecendo a qualquer um o lugar mais alto do pódio, é apelativa e prejudicial – desmerecendo os verdadeiros vencedores e, principalmente, desencorajando a evolução dos demais.

Somos todos dignos de respeito, porém é necessário diferenciar para incentivar tanto o desenvolvimento pessoal como coletivo.  

Individualidade ou egoísmo?

Nossos ouvidos captam de modo negativo o termo individualismo porque frequentemente o confundimos com egoísmo, um vício condenável. Convém, entretanto, refletir sobre aquilo que pensamos saber: o individualismo se relaciona à individualidade, isto é, ao reconhecimento de si mesmo como unidade, ainda que integrante de um grupo maior — a família, a empresa, a sociedade, o planeta. Temos peculiaridades, uma personalidade única em um universo formado por bilhões de pessoas diferentes que compartilham alguns interesses comuns.

O individualismo legitima o cuidado dos próprios interesses — o que não significa, de modo algum, ferir os direitos daqueles ao nosso redor. O individualista deve possuir uma clara noção dos seus limites – sem essa consciência da fronteira que divide os direitos alheios dos seus, aliás, ele não seria capaz de se destacar do todo e abandonaria seu individualismo.  

Os egoístas, por outro lado, são aqueles que pregam grandes e frequentes trocas de experiências entre as pessoas para extrair vantagens para si, exigindo muito dos outros e doando pouquíssimo. Por não sobreviverem sem elas, acusam de egoísta qualquer um que não aceite participar desse jogo perverso – e os individualistas, geralmente, não se submetem a essa manobra, por isso tornam-se alvos.  

O egoísta adora exibir sua suposta autossuficiência, porém é totalmente dependente – de companhia, proteção e atenção, por isso tira vantagem de todos os relacionamentos em que se envolve.  Inveja e gostaria de ser individualista, de suportar e superar com resiliência e dignidade as adversidades da vida, de escolher quando e com quem trocar experiências. Os individualistas detêm essa capacidade, enquanto os egoístas os imitam – ao mesmo tempo em que tentam desmerecê-los.

Mediocracia x Meritocracia

“A censura é o imposto da inveja sobre o mérito.”

– Laurence Sterne

“Se os fatos estão contra mim, pior para os fatos”, afirmava ironicamente o escritor e jornalista Nelson Rodrigues. Essa máxima rege a existência dos medíocres: não precisa estudar tanto, trabalhar tanto, tanto de nada, aliás; o universo “que lute” para se adequar ao seu comodismo e ainda premie sua preguiça.

Na pintura, o tom ocre é utilizado para suavizar a tinta – provavelmente tem origem aí o conceito de medíocre como aquilo que não é forte nem fraco, mediano. É o “morno” da vida: nem tão gelado para refrescar calor, nem tão quente para aquecer o frio.

Burocrata e parasita, o mediocrata geralmente se incomoda quando alguém se destaca, atrapalhando e zombando de qualquer um que pense grande e tente algo realmente inovador. Fala que os outros vão ficar loucos se pensarem ou estudarem demais, tolhendo as inquietações alheias por temerem que ela evidencie sua própria mornidão. Em vez de tentar evoluir, a missão do medíocre é tentar calar ou desacreditar quem busca algo mais.

Adeptos à política do menor esforço, os mediocratas só farão o básico – e olhe lá! -, alardeando: “Não sou burro! Não vão me pagar mais para fazer bem feito esse trabalho.” Esse tipo de pensamento corrosivo, por sua vez, origina-se na cultura assistencialista predominante em países ainda subdesenvolvidos como o Brasil; muitas pessoas acreditam que a empresa deve algo a elas apenas por estarem nela. Por aqui, a famosa frase de John Kennedy, “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer por seu país”, logo se converte em “Não pergunte o que você pode fazer por sua empresa, mas sim o que sua empresa pode fazer por você”

A meritocracia é, essencialmente, a valorização do ser humano. Sua origem etimológica vem do latim meritum, que significa “mérito”, aliada ao sufixo grego cracía, ou “poder”. Esse “poder do mérito” baseia-se em três pilares: preenchimento de requisitos existenciais, esforço contínuo e superação de dificuldades.  

As girafas, por exemplo, possuem um longo pescoço (ou requisito existencial) que lhes permite comer folhas das copas das árvores, e essa característica foi decisiva para a sua sobrevivência em momentos de seca e escassez de alimentos.

Michael Jordan, a estrela do basquete da NBA, dedicava várias horas do seu dia, antes e após a fama, a um treinamento físico rigoroso (esforço contínuo) que envolvia a prática incansável de arremessos. Ele também sofreu perdas e desilusões ao longo da carreira, mas sempre afirmava: “Para aprender a ter sucesso, é preciso primeiro aprender a fracassar.

Já o visionário Steve Jobs popularizou os smartphones e tablets, porém esses dispositivos já existiam em outras marcas, sem sucesso. Jobs, que não era engenheiro de hardware nem software ou programador, criou um novo conceito para difundi-los (superação de dificuldades), estabelecendo elevados padrões de design e usabilidade e liderando meritocraticamente sua equipe. Seu mérito estava, primordialmente, em compreender como as reais necessidades e expectativas humanas deveriam ser supridas com esses equipamentos.

Assim, em suas três formas, a meritocracia mostra-se um elemento universal que une personalidades tão distintas quanto uma girafa, um astro do basquete e um empresário inovador.  Sua ausência, por outro lado, é definida nas palavras do psicólogo e escritor ítalo-argentino José Ingenieros: “O homem sem ideais faz da arte um ofício, da ciência um comércio, da filosofia um instrumento, do capricho uma empresa, da caridade uma festa, do prazer um sensualismo. A vulgaridade transforma o amor pela vida em excessiva timidez, a prudência em covardia, o orgulho em vaidade, o respeito em servilismo. Leva à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez e a simulações medíocres” (Ingenieros, 2011).

Em uma organização, quando mais status, remuneração e poder de decisão são fornecidos àqueles se preparam e entregam resultados superiores, o primeiro passo é identificar, avaliar e comunicar claramente a todos quem são esses merecedores, de modo que todos aceitem essa distinção e tentem alcançá-la também, sem deixar de atuar de forma integrada para o bem comum. Em seu artigo “Gerenciando com o cérebro em mente” no Oxford Leadership Journal, o criador do conceito de neuroliderança, David Rock, explica: “nossa experiência no trabalho é uma experiência social. As pessoas racionalizam esta experiência, ao mesmo tempo limitando seu comprometimento e engajamento (…) A mera frase ‘posso te dar um conselho?’ coloca a pessoa em modo defensivo porque ela percebe a oferta de conselho da outra como uma declaração de superioridade.

Avaliações de desempenho muitas vezes provocam uma resposta de ameaça: as pessoas sendo avaliadas sentem que o exercício em si fere seu status. Isso faz com que a maioria das avaliações seja ineficaz para a geração de mudança comportamental positiva, exceto quando esses processos são extremamente participativos e bem concebidos(Oxford Leadership Journal, 2016).

Ninguém é bom em tudo, porém somos todos bons em algumas coisas. Frequentemente, nossa maior falta é não identificar aquilo em que somos de fato muito bons e investir nisso para nos tornarmos excepcionais. Em vez de aplicar uma abordagem de “contenção de danos” – a mediocracia, que tenta amenizar pontos fracos e nos deixar na média -, devemos focar na criação de valor – a meritocracia, que reforça nossas aptidões preexistentes, liberando todo o nosso potencial em um fantástico nível de desempenho.   

Que abordagem adotaremos em nossas vidas, carreiras e organizações? Mediocridade/contenção de danos ou meritocracia/busca da excelência?

A mediocracia das velas: como morre a inovação

Uma velha fábula conta que, certa noite, em uma comunidade de velas de cera, quando todos já estavam se preparando para dormir, algumas velas avistaram um estranho ponto luminoso vindo ao longe. Sem compreender do que se tratava, rapidamente convocaram todas as velas da aldeia, que também se mostraram confusas e apreensivas com o ponto de luz não identificado, meio branco, meio azulado.

O líder das velas, então, selecionou um grupo dos mais robustos indivíduos e o enviou para buscar aquilo, seja lá o que fosse. Preocupado com o futuro da comunidade – e, principalmente, com seu próprio destino – diante daquela possível força térmica e luminosa superior, ele não dormiu por dias até o retorno da comitiva com o prisioneiro, preso em uma caixa bem pregada.

Tratava-se, para o espanto geral, de uma lâmpada de neon, com brilho equilibrado, intenso e constante. O chefe das velas não compreendia direito a fonte da luminosidade daquele prisioneiro, mas de uma coisa sabia: ele representava uma inovação desconhecida, o futuro da iluminação, ameaçava a estabilidade de todos ali e, por isso, deveria ser eliminado. Assim, com uma corda presa ao soquete – local mais semelhante ao pescoço –, a pobre lâmpada foi enforcada, partindo-se em cacos espalhados pelo chão. E a sobrevivência da tacanha aldeia, mediocremente iluminada pelas velas, estava assegurada ao menos por mais alguns dias, pensaram todos, aliviados.

Figura 1.1 Mediocracia, a grande inimiga do progresso. 

Todos nós somos medíocres em algumas coisas e isso não é um problema. O problema da mediocridade se dá quando ela se torna o traço característico de todo um sistema social.

Quando a sociedade nos induz a sermos cidadãos resolutamente medianos, nem absolutamente incompetentes a ponto de não servir para nada, nem competentes a ponto de desenvolver uma grande consciência crítica.

Nesse contexto, aqueles que se diferenciam por uma visão inovadora, uma cultura sólida e a capacidade de transformar o status quo são logo silenciados e deixados à margem. Em um ambiente mediocrático, é fundamental não romper a categoria, ajustando-se à mesquinha ordem estabelecida e submetendo-se a ideologias e formatos que nunca são questionados. Assim, a mediocracia forma sonâmbulos, pessoas que consideram inevitáveis as especificações, até absurdas, às quais são forçadas diariamente.

Uma recente pesquisa realizada com 650 executivos de empresas de diversos setores e publicada na revista Harvard Business Review revelou que mais de 80% concordam que o mérito deve ser o principal propulsor das carreiras e deve fundamentar escolhas, decisões e todo o processo da vida de uma pessoa na empresa (HBR, 2020).

Quando perguntados sobre a meritocracia na prática, porém, os profissionais mostraram-se desconfiados. Na visão deles, muitas vezes o principal fator para as promoções é a proximidade com o chefe. De acordo com 55%, a avaliação de desempenho não possui critérios claros ou é flexibilizada conforme o avaliado.

O favoritismo, portanto, é um traço cultural capaz de destruir a meritocracia, instaurando a crença generalizada de que os “amigos do rei” têm mais possibilidades de crescer dentro da organização. Assim, enquanto no âmbito conceitual há um consenso de que a meritocracia deve prevalecer, as experiências práticas indicam o favoritismo como o mais importante critério de julgamento.  

Por isso, a construção de um ciclo de desempenho mais inclusivo e dinâmico é um dos maiores desafios da gestão empresarial contemporânea – não se trata de acabar com a meritocracia, mas sim de depurá-la combatendo vieses inconscientes e promovendo a diversidade através de mecanismos mais claros e eficientes de avaliação.

Adequar sua carreira e empresa aos princípios da meritocracia pode ser uma tarefa árdua, porém certamente trará ótimos frutos no médio/longo prazo.

Para auxiliar nessa missão, a FELLIPELLI oferece os seguintes instrumentos de excelência: o MBTI®, certificação que oferece um amplo entendimento sobre os indivíduos, facilita o autoconhecimento e a compreensão do outro, aumentando a tolerância e potencializando colaboradores e lideranças, e o EQ-i 2.0®, assessment mais respeitado do mundo para a compreensão e o desenvolvimento da inteligência emocional.

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Referências bibliográficas

Tema: MBTI®, EQ-i 2.0®.

Subtema: Desenvolvendo uma cultura verdadeiramente meritocrática na vida e no trabalho.

Objetivos: Desenvolvimento Organizacional, Desenvolvimento de Liderança, Coaching, Coaching nas Empresas.

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