“Vigiar e punir” no século 21: Como cancelar a cultura do cancelamento13 min de leitura

Como sobreviver ao linchamento virtual do tribunal da internet – na vida pessoal e profissional

Por Adriana Fellipelli para o Linkedin

“Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta.”

– Michel Foucault

Você abre uma rede social, visualiza o perfil do seu artista favorito e então nota um burburinho. Em poucos minutos navegando, você logo percebe que os outros usuários reviraram a vida da celebridade e encontraram uma antiga postagem ou entrevista em que ela expressa opiniões polêmicas ou preconceituosas. E agora, seguir a manada e “cancelá-la” ou não?

Se escolher cancelar, basta deixar de segui-la nas redes, de prestigiar seu trabalho e curtir suas publicações. Simples assim. Talvez seja indicado ainda compartilhar críticas ao indivíduo, evidenciando que você desaprova seu comportamento e não o apoia mais. Caso você opte por não cancelá-lo, porém, será preciso elaborar boas justificativas para quando você for questionado, chamado de “passador de pano” e, eventualmente, até ofendido. Mesmo assim, ainda é possível que você seja cancelado junto com ele.

Criado no universo das mídias sociais, o termo “cancelamento” refere-se a uma pessoa, empresa ou marca boicotada pelo público após agir de modo censurável – geralmente depois de assumir posições equivocadas relacionadas a machismo, racismo ou homofobia.  Trata-se de um ataque orquestrado à reputação com o objetivo de tirar o alvo dos holofotes e puni-lo. O suposto delito é compartilhado inúmeras vezes, mensagens de ódio são enviadas, e o “cancelado” é humilhado e sumariamente condenado, sofre penalidades psicológicas, sociais e financeiras, com perda de empregos, patrocínios e contratos.

Figura 1 Linchamento: uma onda de violência psicológica e moral que pode arrasar a vida pessoal e profissional do indivíduo.

Em 2014, um caso no Guarujá ganhou destaque por seu enredo surreal: uma mulher, mãe de dois filhos, foi linchada e faleceu no hospital após ser confundida com uma sequestradora de crianças, cujo retrato falado foi amplamente divulgado nas redes sociais. Tratava-se, porém, de boato, uma vez que o caso ocorrera no Rio de Janeiro, mais de dois anos antes.

No linchamento virtual, embora geralmente não haja agressão física concretizada, o mecanismo é o mesmo: pessoas se juntam para destruir alguém por meio de postagens, curtidas, comentários e compartilhamentos – uma onda de violência psicológica e moral capaz de arrasar a vida pessoal e profissional do indivíduo.

O linchamento como problema social, entretanto, está longe de ser uma novidade; nele, os acusadores, em geral anônimos, sentem-se isentos da necessidade de apresentar provas contra a vítima, enquanto a mesma não tem sequer a oportunidade de elaborar sua defesa.

Curiosidade…

Aproximadamente 1 milhão de brasileiros já participaram de algum ato ou tentativa de linchamento, colaborando com agressões como ataques a pauladas, pedradas e espancamentos.  Esse número, porém, pode alcançar 1,5 milhão, uma vez que vários casos não são registrados. O linchamento é um tipo de “justiçamento popular” e, no Brasil, é um elemento endêmico, representando uma ampla crise de ruptura social. Aqui, a pena de morte deixou de ser aplicada ainda no período imperial, extinta por lei, entretanto o povo seguiu praticando-a por meio dos linchamentos – um claro e cruel retrato da separação entre a legalidade e a realidade no país.

Linchar não corresponde a uma violência original; representa uma segunda violência, fundamentada em um julgamento ético e moral coletivo. Indica que o comportamento de cada pessoa – principalmente seus delitos e crimes – está sujeito não apenas às normas jurídicas vigentes, mas também à aprovação social; segundo ela, há crimes “legítimos”, embora ilegais, e crimes sem legitimidade.

O ritual de purificação do cancelamento

“Sou o autor; observem meu rosto; é a isto que deverão assemelhar-se todas essas figuras duplicadas que vão circular com meu nome; as que se afastarem dele, nada valerão, e é a partir de seu grau de semelhança que poderão julgar o valor dos outros.”

– Michel Foucault

Em um linchamento – virtual ou físico –, a vítima ocupa o lugar sacrificial e ritual do bode expiatório, alimentando uma satisfação, um prazer coletivo que deve ser compreendido como percurso.

Primeiro, você se identifica com uma determinada personalidade que te representa, investindo tempo e atenção ao segui-la e curtir tudo o que ela publica. Posteriormente, ao cancelá-la e deixar de apoiá-la, você simplesmente “saca” todo o capital emocional que depositou nela, como se tirasse dinheiro de uma conta bancária.

Esse movimento, por sua vez, gera a sensação de que algo retornou para você – um aspecto típico de uma sociedade envolta em culpas.

O conceito de punição é outro elemento desse prazer travestido de cancelamento – como a maioria das pessoas confunde responsabilidade com culpa, a ideia de punir alguém alivia esse sentimento. As redes sociais transmitem o tempo inteiro a impressão de que todos são felizes e bem-sucedidos, menos você. Ora, mas por que não você, o que você fez de errado? Assim, acabamos punindo o outro quando ele se torna muito similar à parte que consideramos insuficiente em nós mesmos.

Trata-se, essencialmente, de uma concepção ilusória de purificação do ego: “a culpa não é minha, é dele, eu jamais faria algo assim, nem os meus parentes e amigos, por isso ele deve ser cancelado”.

Figura 1.1 O cancelamento leva à formação de grupos que passam a não saber lidar com a diversidade e as contradições que a vida apresenta.

Quem cancela, portanto, não deseja debater ou corrigir o cancelado – isso implicaria se responsabilizar -, mas sim culpar e extinguir o indivíduo de um espaço simbólico, que pode ser uma sociedade, uma família, uma equipe de trabalho, entre tantos outros agrupamentos possíveis.

O cancelamento acaba promovendo também, desse modo, um fortalecimento de bolhas, estimulando a formação de grupos cada vez menos capazes de lidar com a diversidade e as contradições.

O historiador grego Plutarco (46 d.C.-120 d.C.) já exaltava o poder do ser humano de escolher seus amigos e inimigos, mas parece que até hoje ainda não aprendemos a fazê-lo com autonomia, equilíbrio e sabedoria, aderindo a consensos e tendências de cancelamento em vez de pensar e sentir livremente.

Vigiar e punir no século 21

“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.”

– Michel Foucault

Em “Vigiar e Punir”, uma de suas obras mais proeminentes, o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) introduz um novo tipo de poder: o disciplinar. Ao contrário da soberania, que simplesmente aniquila quem não a obedece, a disciplina atua de forma mais sutil e requintada, produzindo pessoas alienadas e obedientes – chamadas por Foucault de “sujeitos dóceis” (Foucault, 2014).   

Para exemplificar esse processo, o autor recorreu ao conceito de panóptico, idealizado pelo filósofo iluminista Jeremy Bentham (1748-1832), que consiste em um modelo de prisão no qual todas as celas estão dispostas em forma circular. Uma torre bem alta é colocada no meio do círculo, de modo que quem a ocupa consegue enxergar bem o interior de cada cela, mas os prisioneiros, embora vejam a torre, não conseguem saber se estão sendo vigiados ou não devido ao tipo de janela, parecido com uma persiana. Os presos passam então a vigiar uns aos outros, evitando e punindo infrações por não saberem se estão sendo monitorados.

Apesar de nunca ter sido colocado em prática, esse padrão penitenciário auxiliou Foucault a compreender que não é necessário estar trancado em uma cela para sofrer esse tipo de poder vigilante e disciplinador. “É surpreendente que prisões se pareçam com fábricas, escolas, quartéis e hospitais?”, questiona ele.

Atualmente, no ambiente virtual das redes sociais, os próprios usuários mantêm um olhar vigilante uns sobre os outros, mas a internet nem sempre foi esse campo minado de mútua opressão. O universo online já deu voz a inúmeras causas sociais relevantes, estimulando o movimento de “chamar atenção” ou call-out culture. Através dele, grandes injustiças contra grupos marginalizados eram expostas, as pessoas avisavam e o comportamento era corrigido, não se repetindo no futuro.

Ao longo dos anos, contudo, os internautas tornaram-se mais críticos e intolerantes, ao ponto de qualquer like, gesto ou comentário poder disparar subitamente um ataque virtual em massa, sem um propósito real e construtivo além de ofender e massacrar o “pecador”.

De ferramenta de conscientização e aperfeiçoamento socioemocional,  o chamar atenção transformou-se em cancelamento, um meio de se gabar por estar social ou politicamente mais consciente do que outra pessoa. Isso não é ativismo, mas sim uma covarde e egocêntrica humilhação.

Ao criar uma projeção de que é possível deletar instantaneamente alguém sem ao menos dialogar, a cultura do cancelamento reforça o ódio e a intransigência – se eu só quero falar e não ouvir nada, basta bloquear e pronto. A vida real, no entanto, não funciona assim – ser justo, empático e emocionalmente responsável dá trabalho, mas compensa.  

Outro malefício da cultura do cancelamento é a supressão de debates saudáveis e respeitosos sobre os assuntos tratados – as pessoas não querem trocar ideias e ouvir argumentos, só querem saber se você é contra ou a favor. Assim, na pressa para se posicionar, o individuo costuma deixar de lado a investigação dos fatos, a reflexão e o próprio senso crítico.  

Se você não escolhe um lado em cinco segundos, logo todos estarão dizendo que está “em cima do muro”, afinal, polarização e opiniões tão extremadas quanto superficiais, hoje em dia, geram muito mais views do que ponderação e maturidade.  

É urgente, portanto, ressignificar a cultura do cancelamento, assumindo que todo mundo erra e evolui e desenvolvendo abordagens realmente válidas e capazes de contribuir com um debate público mais inclusivo e eficiente. Esse é um enorme desafio, pois envolve educar pessoas para que não simplesmente cancelem o que as desagrada, mas aprendam a divergir de modo democrático, viabilizando o diálogo. Compreender e fazer entender que a vida é um ciclo infinito de discordâncias, dissenso e aprendizados é o primeiro passo nessa jornada.

E você, já foi cancelado ou cancelou alguém hoje?

Para refletir…

Cancelamento no ambiente de trabalho

Empresas são coalizões de indivíduos com posições emocionais, sociais e políticas diferentes. Dentro de cada organização há significativas divergências de opiniões sobre o que significa igualdade, além de cortes geracionais em um mundo de mídia social no qual é cada vez mais difícil manter a privacidade.

Figura 1.3 Como líder, como você age ao perceber a prática do “cancelamento” para a formação de exclusão de algum colega?

Nesse contexto, os departamentos de recursos humanos enfrentam desafios cada vez mais frequentes e complexos: o que fazer se uma funcionária diz sentir-se desconfortável ao dividir o banheiro com uma colega transgênero, por exemplo? A maioria das empresas busca genuinamente fazer a coisa certa em termos raciais e LGBT, mas cabe a quem definir o que é correto?

Como agir se você é líder de uma empresa em que o cancelamento está sendo usado para formar “panelas” e excluir algumas pessoas?

Se você ficar sabendo que um funcionário foi cancelado, é fundamental resolver o problema imediatamente. No trabalho, esse comportamento pode variar de um grupo que propositalmente afasta um colega de trabalho de um projeto, detendo informações importantes, até a publicação de comentários, fotos e vídeos denegrindo-o nas mídias sociais.

Antes de tudo, identifique quem está envolvido no caso e quem é o foco da ação. Qual foi a conduta original que incitou a exclusão? É importante lembrar que, caso o cancelamento prossiga e configure assédio, a organização poderá ser responsabilizada.  

A situação muitas vezes resulta da falta de procedimentos bem estabelecidos na empresa para relatar comportamentos inadequados. A organização de fato segue esses protocolos? Há algum tipo de estrutura de poder entre os colegas de trabalho? Algum funcionário pode estar obtendo satisfação e vantagens ao manipular e jogar os demais uns contra os outros?  

Ainda que não fique evidente como o cancelamento começou, todos os membros da empresa devem ser informados sobre quais atitudes e tratamentos são ou não aceitáveis – esse treinamento precisa fornecer também instruções sobre como se portar nas mídias sociais. Como elas são um elemento relativamente novo no âmbito dos negócios, muitos líderes ainda não sabem como lidar com elas, definindo diretrizes para toda a equipe.

A cultura do cancelamento emergiu das mídias sociais e hoje afeta não apenas celebridades, mas também anônimos e empresas.

A FELLIPELLI oferece uma vasta gama de instrumentos que te ajudarão a lidar com essa nova realidade: EQ-i 2.0®, assessment mais respeitado do mundo para a compreensão e o desenvolvimento da inteligência emocional; Projeto Emotions, uma abordagem inovadora das emoções que pode ser aplicada em todos os contextos da vida: pessoal, profissional, relacional, ao resolver um problema, enfrentando situações desafiadoras etc.; IPT® Liderança, um relatório que descreve as principais características do estilo de um indivíduo em sua forma de abordar as tarefas, interagir com as pessoas e seu comportamento no ambiente trabalho; entre outros.

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Referências bibliográficas

  • MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. Editora Contexto, 2015.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Editora Vozes, 2014.

Tema: EQ-i 2.0®, IPT® Liderança.

Subtema: A identificação do poder vigilante e negativo das redes sociais com a prática da exclusão no ambiente corporativo.

Objetivo: Desenvolvimento Organizacional, Desenvolvimento de Liderança, Coaching. Coaching nas Empresas, Team Building, Desenvolvimento de Equipe.

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