Um modelo para lidar com a dinâmica do mundo VUCA13 min de leitura

Por que as competências da inteligência emocional são medidas essenciais para a adaptação às incertezas do mundo VUCA?

Deixo aos vários futuros (não a todos) o meu jardim de caminhos que se bifurcam”. – BORGES, 1941

Como no conto do escritor argentino Jorge Luís Borges, O jardim dos caminhos que se bifurcam, cujo pequeno trecho acima ilustra poeticamente nosso argumento, vivemos um momento de muitos futuros possíveis, mas para que lá cheguemos de forma menos dolorosa e mais preparada, é preciso, primeiramente, que saibamos ver (ou antever) para que depois iniciemos a construção das possíveis trilhas que escolheremos conscientemente percorrer.

Já falamos aqui e é bem provável que você já tenha se deparado muitas vezes a com expressão “mundo VUCA” em outros lugares. Por isso, é prudente que dedique alguma atenção ao assunto, pois ele será de grande valia na sua adaptação para um futuro cujos mercados e profissões já estão tomados por uma constante: a mudança acelerada.

O que é o mundo VUCA? Revisitando o conceito

A palavra VUCA é um acrônimo, uma composição feita da junção de quatro letras que significam: Volatilidade (Volatility), Incerteza (Uncertainty), Complexidade (Complexity) e Ambiguidade (Ambiguity).

Figura 1.0 VUCA.
Figura 1.0 VUCA.

Quais são as razões para considerarmos essas quatro letrinhas tão importantes?

Para compreender a importância do termo e o que ele representa é preciso retroceder à sua origem, na cidade de Carlisle, no estado da Pensilvânia, nos EUA, mais precisamente, no Army War College. A criação do termo atribui-se à escola de graduação do exército para futuros generais, que, hoje, informalmente, intitula a si mesma, de Universidade VUCA.

O que motivou a criação do termo foi o estudo dos militares sobre as potenciais situações de conflitos em território estrangeiro e as respectivas ações que devem ser executadas a fim de evitar combates armados. Em muitas regiões, as áreas de atuação do exército envolvem comunidades com muitos civis, situação cujos desdobramentos são sensíveis em várias esferas: social, política, econômica, institucional etc.

Os soldados estão muitas vezes vulneráveis; a população, exposta; e o combate armado potencial ocorre muitas vezes inesperadamente. Esse é um cenário de alta volatilidade, as incertezas vivenciadas pelos soldados e pela comunidade local geram muitas tensões no ambiente, as variáveis para serem manipuladas em circunstâncias como essas são muitas, portanto, alta complexidade de análise. Para finalizar, temos ainda a ambiguidade das medidas ou ações autorizadas pelo exército, ações rápidas e imediatas ofuscam o juízo e provocam sempre alguma consequência, normalmente opta-se pelo menor risco e dano, protege-se algum valor: humano, político, social, financeiro, etc.

Portanto, foi da análise desse cenário militar que teve origem o acrônimo VUCA. Os estudiosos do mundo corporativo (consultores, acadêmicos), especialmente os norte-americanos, cujas teorias muito nos influenciaram e ainda influenciam, tiveram uma relação de proximidade com as práticas militares. O benchmarking com a cultura militar sempre foi o preferido dos estrategistas de gestão, muitas vezes resulta em populares papers acadêmicos e livros que alimentam a indústria editorial corporativa.

Da análise de cenário de uma realidade, cuja consequência, muitas vezes, foi a perda de vidas humanas, além de todas as outras consequências que os eventos geraram, o termo surgiu como um guia que serviu para dar alguma perspectiva e compreensão aos cenários caracterizados pela:

  • mudança muito rápida (volatilidade);
  • alta instabilidade emocional dos processos (incertezas), com variáveis dinâmicas que impedem a nossa capacidade humana de calcular e fazer melhores usos dos recursos;
  • impossibilidade de planejar e prever todos os desdobramentos dos eventos (complexidade);
  • necessidade de fazer escolhas rápidas, sem tempo suficiente para avaliar e decidir pela opção mais vantajosa (ambiguidade).

A estratégia permite, a partir de uma decisão inicial, prever certo número de cenários para a ação, cenários que poderão ser modificados segundo as informações que chegarão ao curso da ação e segundo os acasos que se sucederão e perturbarão a ação”. (MORIN, 2005)

As reações mais costumeiras evidenciadas por aqueles que se deparam com as premissas do mundo VUCA revelam alguns padrões comportamentais, no entanto, praticamente todas as reações são expressões que refletem alguma forma de posicionamento frente a todas as mudanças que estão sendo profetizadas.

Seja em reuniões de executivos, sala de aula com pós-graduandos que desejam levar alguma luz para seus departamentos ou estudiosos teóricos (acadêmicos) que buscam subsídios para modelar possibilidades que orientem as ações de seus leitores e público-alvo, a pergunta mais frequente que tem despontado nos debates é: o que vou fazer nesse mundo assustador, confuso, impossível de acompanhar devido à aceleração constante?

Algumas perguntas ululam como num brainstorming criativo: os menos otimistas acabam por sofrer um sequestro da amígdala e expressam as emoções de medo, insegurança e desconforto e reagem mantendo-se na defensiva, vivenciando a negação dos fatos ou sofrendo de paralisia atitudinal.

Já os mais otimistas, demonstram reações de curiosidade, fascínio e vontade de mudança, expressam seu entusiasmo pesquisando e abrindo-se para entender as possibilidades que estão se desenhando. Independentemente de qual seja o viés em um primeiro momento, todos estão se perguntando: será que vou perder meu emprego? O que farei com minha carreira?  O que o futuro reserva para mim?

Felizmente, novos circuitos neuronais podem ser criados como antídotos para os comportamentos indesejados. Aprender parece ser a única solução eficiente e sustentável no mundo VUCA. Na prática, isso se traduz no desenvolvimento de novas habilidades.

O perigo pungente das atitudes não adaptativas e de resistência ao aprendizado contínuo pode se tornar drama ou tragédia. Nossos automatismos não estão sendo sequer identificados, agem como uma sombra silenciosa sempre presente.

Sem identificação não há diagnóstico, sem diagnóstico não há tratamento, sem tratamento não temos remédio para combater a obsolescência humana frente às mudanças nos mercados de trabalho.

Quando menos esperamos, pronto, a conta chega: alguma sútil e, talvez, imperceptível ameaça do mundo VUCA apresenta-se na forma de desemprego, perda de clientes, inovação do concorrente, avaliação de desempenho baixa e por aí a lista só cresce.

Modelos mentais fixos diminuem a empregabilidade com o passar do tempo.

Você já ouviu falar do modelo das 5 partes, também conhecido como modelo da experiência individual?

Todo modelo nada mais é do que uma simplificação da realidade, um recurso cognitivo de muita utilidade pedagógica e, em alguns casos, alguma utilidade prática também. Este é o caso do modelo que será apresentado. Ele nos ajuda a elaborar análises sistêmicas de forma mais organizada e traz alguma clareza para a tomada de decisão quando há interação entre os nossos padrões de pensamento, nossas emoções, comportamentos, reações fisiológicas e os ambientes onde vivemos. Ele nos ajuda a visualizar mais ordenadamente as peças do quebra-cabeça que compõe a dinâmica das interações e da convivência humana.

Qual a beleza inestimável do modelo para a nossa realidade?

Ele nos ajuda a observar de forma sistêmica nosso processo de desenvolvimento e adaptação.

A competência do pensamento sistêmico é uma competência-chave em cenários VUCA, ela nos auxilia na solução de problemas e nas análises que levam em conta a dinâmica da complexidade e das incertezas dos cenários.

O modelo das 5 partes foi apresentado pela PH.D e psicóloga cognitivo-comportamental americana Christine Padesky, no International Cognitive Therapy Newsletter na década de 1990 e reapresentada em publicação uma década mais tarde.

Figura 2.0 Modelo das 5 partes.  Fonte: Adaptação de (PADESKY, 2015) pelo autor do texto. (Tradução livre)
Figura 2.0 Modelo das 5 partes.
Fonte: Adaptação de (PADESKY, 2015) pelo autor do texto. (Tradução livre)

No presente modelo, todos os elementos adaptativos individuais estão conectados, sua dinâmica intercambiável nos orienta para escolhas mais estratégicas e sustentáveis.

A tomada de consciência é o primeiro estágio fascinante dos clientes nos casos em que o modelo foi utilizado. Quaisquer que sejam as vivências no nosso dia a dia, em tudo que fazemos, os cinco elementos interagem como uma dança, a ênfase em determinado elemento gera alguma reação nos outros componentes e, quando nos damos conta, todo o sistema está trabalhando para produzir o que chamamos de experiência.

Um sistema é um todo percebido, cujos elementos mantêm-se juntos porque afetam continuamente uns aos outros ao longo do tempo, e atuam para um propósito comum (…) a estrutura de um sistema inclui a qualidade da percepção com a qual você, o observador, o faz parecer unido”. (SENGE, 2015)

Para serem sustentáveis, os resultados que esperamos de nossos processos de desenvolvimento devem levar em conta o elemento das interações sistêmicas.

O elemento estados de humor (moods) relaciona-se com os padrões de pensamento (thoughts), com as reações fisiológicas (physical reactions) e com os comportamentos(behaviors). Esses quatro componentes formam um indivíduo. O elemento que resta para conectarmos toda a experiência é o ambiente (environment), palco das trocas entre o indivíduo e as outras pessoas existentes na sociedade (intercâmbios sociais).

É nesta interface que surge a necessidade de desenvolvermos as competências da inteligência social, das nossas relações interpessoais, da empatia, da maneira como expressamos nossas emoções e da assertividade como nos comunicamos com todos aqueles com quem convivemos.

A pergunta mais comumente feita pelos clientes quando conhecem o modelo é: por onde começamos o trabalho?

Não existe um método rigoroso ou ortodoxo na utilização do modelo, uma de suas características fundamentais é a flexibilidade, ele é um sistema adaptativo aberto, cada circunstância pode ser avaliada pela ênfase em algum determinado elemento.

Em processos de desenvolvimento de competências do tipo soft skills, por exemplo, tanto nossa experiência teórica quanto prática revela que a tomada de consciência do indivíduo sobre sua condição emocional é um excelente caminho para iniciar um programa de desenvolvimento.

Cada vez mais os componentes da inteligência emocional serão exigidos para nossa adaptação VUCA.

Quando juntamos as perguntas sobre o que fazer para estar adaptado ao mundo VUCA e por onde começar a adaptação, uma resposta assertiva e eficaz é: comece pela tomada de consciência de sua estrutura emocional. Ela que dará sustentação a todo o processo de desenvolvimento e aprimoramento das habilidades cada vez mais necessárias neste mundo saturado de informações e de voraz aceleração tecnológica.

Figura 3.0 Inteligência Emocional.
Figura 3.0 Inteligência Emocional.

Como anda a sua Inteligência Emocional?

Você é capaz de identificar os elementos de sua Inteligência Emocional com precisão?

Como está a sua consciência de si mesmo?

Essas e outras perguntas podem ser respondidas com muito mais profundidade pelo instrumento EQ-i 2.0®  e 360, que avalia nosso mapa emocional e nos educa sobre nossas próprias emoções. Essa educação se inicia pela tomada de consciência, que é um dos primeiros componentes avaliado pelo instrumento.

Uma vez iniciada a jornada de desenvolvimento com um instrumento de avaliação robusto de inteligência emocional, uma série de possibilidades abre-se para nos apoiar no processo de adaptação.

Uma das características mais importantes do instrumento é sua aderência ao modelo de 5 partes apresentado antes. O EQ-i 2.0®  e 360 também funciona como um sistema adaptativo aberto, ou seja, pode ser aprimorado constantemente desde que seja tratado com compromisso e seriedade.

No mundo VUCA a capacidade de diferenciação e criatividade é chave para o sucesso profissional. Tudo começa com as emoções certas, na hora certa, na medida certa, comunicadas de maneira assertiva.

Iniciamos e concluímos nosso texto com trechos de grandes autores da literatura mundial. O que eterniza esses escritores é sua capacidade de tornar consciente o funcionamento das emoções próprias e alheias. As emoções ilustradas nas vidas dos personagens e dos enredos, contados nas histórias e nos poemas, nada mais são do que a representação dos dramas e experiências que vivenciamos consciente e inconscientemente em nosso cotidiano.

Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas isso é o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. (Dostoiévski em Os irmãos Karamázov)

A Fellipelli é incansável em sua busca por inovação e parcerias para oferecer as melhores soluções e tendências que atendam os processos de aprendizagem de nossos clientes.

Oferecemos assessments e cursos exclusivos nas áreas de liderança, desenvolvimento pessoal e de equipesrelacionamentos interpessoaisinteligência emocional e muitas outras. Consulte-nos!

Para saber mais:

Indicações técnicas

  • GARDNER, Howard. Mentes que mudam: a arte e a ciência de mudar as nossas ideias e as dos outros. Porto Alegre: Bookman, 2005.
  • SENGE, Peter. A quinta disciplina: Arte e prática da organização que aprende. 25.ed. São Paulo: Best Seller, 2009.

Literatura

  • BORGES, Jorge Luís. Ficções. São Paulo: Companhia das letras, 2007.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: editora 34, 2008.

Referências bibliográficas

  • GREENBERGER, Dennis, PADESKY, Christine A. Mind over mood: change how you feel by changing the way you think. 2.ed. Nova Iorque: The Guilford Press, 2015.
  • JOHANSEN, Bob. Get There Early. São Francisco: Berrett-Koehler Publishers Inc, 2007.
  • MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.
  • KLEINER, Art, SENGE, Peter, ROSS, Richard, SMITH, Bryan, ROBERTS, Charlotte. A quinta disciplina: caderno de campo. Rio de Janeira: Qualitymark, 1995.
  • STEIN, Steven J. BOOK, Howard E. The EQ edge: emotional intelligence and your sucess. Ed. Ontario: Jossey-Bass, 2011.
  • ARTIGOS:
  • MOONEYM Kathleen A, PADESKY, Christine A. Clinical tip: presenting the cognitive model to clientes. International Cognitive Therapy Newsletter, 6, 13-14, 1990.

Tema: Cultura Organizacional.

Subtema: Desenvolvendo as competências da Inteligência Emocional para lidar com o mundo VUCA.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento Organizacional, Desenvolvimento de Liderança, Coaching, Coaching nas Empresas.

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