A cultura da cooperação contribuindo para a qualidade das relações11 min de leitura

O desempenho organizacional é positivamente impactado quando se adota as práticas da cultura da cooperação.

Toda força será fraca se não estiver unida.”- Jean de La Fontaine

A cooperação existe em todo o mundo, do nível vida celular ao social. Nossas células são descendentes de organismos unicelulares que antigamente competiam entre si ou atacavam uns aos outros, mas hoje trabalham em equipe para funcionar como um time coeso. No interior de nossas células, as mitocôndrias que geram energia são descendentes de bactérias de vida livre que abdicaram sua autonomia em prol de uma existência cooperativa. Corais, liquens e diversos tipos de plantas hospedam bactérias benéficas ou fungos em seus corpos e os usam para extrair nutrientes vitais, enquanto diferentes espécies de microrganismos que vivem em hospedeiros têm com eles uma relação de interdependência. Animais, de insetos a leões, cooperam com familiares próximos, e a civilização humana foi criada a partir da cooperação mesmo entre pessoas não aparentadas.

Essa biologia cooperativa também se aplica ao meio corporativo, no qual a qualidade do ambiente de trabalho é um dos grandes diferenciais para ter sucesso. Como a maioria das pessoas passa cerca de um terço da vida nesse local, criar um espaço democrático, harmonioso e agradável mostra-se fundamental não apenas para o bem-estar dos funcionários, mas também para o próprio desempenho organizacional.

Figura 1.0 Cooperação no ambiente empresarial.
Figura 1.0 Cooperação no ambiente empresarial.

Um levantamento da Harvard Business Review descobriu que colaboradores mais satisfeitos e felizes apresentam ganhos de 31% na produtividade e 37% nas vendas, além de serem até três vezes mais criativos do que a média, e muito mais motivados a atender melhor os clientes, minimizar desperdícios e até evitar acidentes no trabalho (HBR, 2014).

Quando o ambiente laboral é ruim o simples pensamento de ir trabalhar torna-se sofrível e insuportável. Por outro lado, um ambiente equilibrado e agradável, onde predomina a paz, inspira os empregados.

Para criar esse tipo de ambiente é necessário incentivar a cooperação, consolidando o senso de coletividade e incorporando-o à própria cultura organizacional. Ron Friedman, psicólogo comportamental norte-americano e autor do livro “The Best Place to Work: The Art and Science of Creating an Extraordinary Workplace“, sugere algumas medidas básicas para tornar uma empresa mais cooperativa (FRIEDMAN, 2015):

  • Troca de experiências de vida:

Experiências pessoais podem ser compartilhadas das mais diversas formas. Além dos ensinamentos e relatos feitos espontaneamente durante o próprio expediente de trabalho, convém organizar eventos, encontros, reuniões e palestras especialmente para promover o intercâmbio de histórias de vida entre os colaboradores. Essa iniciativa é extremamente benéfica e leva as pessoas a compreenderem e valorizarem mais umas as outras, reduzindo o clima de competição.

  • Reconhecimento das conquistas da equipe:

O setor de Recursos Humanos deve frequentemente demonstrar a importância de cada colaborador para o bom funcionamento da equipe e da empresa em geral. Muitas empresas pecam por reconhecer os esforços e resultados dos funcionários apenas em ações pontuais, como no dia do aniversário ou nas premiações de funcionário do mês.

Para ser efetivo, o reconhecimento deve estar presente em ações simples do cotidiano. Celebrar as pequenas conquistas e apontar o papel de cada um nelas são injeções de ânimo na equipe, mantendo sua motivação sempre renovada.

  • Cultura do feedback e recompensas coletivas:

A cultura do feedback equivale a uma gestão transparente em relação a cada funcionário e à equipe como um todo, afinal ninguém consegue trabalhar no escuro. É fundamental que os profissionais e os grupos de trabalho saibam exatamente quais são as expectativas da empresa em relação a eles e como eles estão desenvolvendo suas tarefas.

É importante observar que a cultura do feedback também implica no feedback emitido pelo colaborador para a empresa, inclusive críticas e reclamações que podem ser muito úteis para enxergar pontos de melhoria no negócio. Afinal, é melhor corrigir falhas diante do público interno do que percebê-las somente quando os clientes já estiverem insatisfeitos.

Figura 1.1 Cultura do feedback.
Figura 1.1 Cultura do feedback.

As recompensas coletivas, por sua vez, são novidades que estimulam cada membro da equipe a gostar mais do que faz e, assim, fazer melhor. A Medallia, um software de gestão da experiência do cliente com base na Califórnia, premia seus colaboradores com visitas a psicólogos para compreender e superar seus medos, pessoais ou profissionais, além de atividades recreativas em grupo como curso de boxe profissional, lições de canto ou aulas de dança (MEDALLIA, 2019).

  • Avaliação comportamental dos funcionários:

A avaliação comportamental é uma poderosa ferramenta utilizada pelas empresas para identificar as forças e fraquezas de seus funcionários. Com o uso de técnicas e metodologias específicas, os gestores conseguem prever e analisar as reações de cada profissional diante de diversas situações, o que possibilita a formação de equipes mais balanceadas e coerentes.

Cooperação, relacionamentos interpessoais e gestão de conflitos

Quando os médicos diferem, o paciente morre.” – Confúcio

Por definição, uma empresa é um lugar onde várias pessoas trabalham juntas para alcançar metas em comum. Para isso, é necessário dispor dos recursos necessários e realizar esforços coordenados.

No entanto, ainda que a coletividade e a capacidade de atuar em equipe sejam essenciais para ter sucesso nessa empreitada, os interesses pessoais frequentemente divergem, dando origem aos conflitos organizacionais.

A ausência de ferramentas adequadas para a gestão desses conflitos  é um dos maiores problemas enfrentados no cotidiano das empresas. A disputa por poder e o excesso de competitividade geralmente sobrepõem os interesses pessoais aos objetivos da própria companhia, manifestando-se através de posturas individualistas e atritos nas relações interpessoais .

Uma rotina de trabalho solidária e cooperativa – indispensável para a boa performance corporativa – exige que os anseios e objetivos pessoais sejam colocados em segundo plano. Nesse caso, conciliar o desejo de se destacar na equipe a um comportamento colaborativo saudável – seja em cargos operacionais ou de gestão –  é possível através das seguintes medidas:

  • Revisão dos paradigmas e modelos mentais que obstruem a coopetição:

Para criar uma equipe mais unida e produtiva, o paradigma da competição precisa ser substituído pelo da coopetição. Coopetir significa aprender a cooperar e encontrar soluções conjuntas em vez de competir o tempo todo com outros membros da equipe. A prioridade deve ser sempre construir bons resultados para a empresa, deixando em segundo plano a distribuição deles entre os funcionários.

Coopetição é um neologismo criado para descrever uma estratégia de negócios fundamentada na teoria dos jogos e que busca combinar as características da cooperação e da competição. O tema é explorado por Barry Nalebuff, professor da Yale School of Management, e Adam Brandenburger, professor da Stern School of Business, no livro “Co-opetition”, que explica como aplicar a teoria dos jogos aos negócios (NALEBUFF e BRANDENBURGER, 1996).

  • Desenvolvimento da percepção de si mesmo e do outro:

Os paradigmas e perfis psicológicos das pessoas devem ser analisados a fim de descobrir seus sistemas representacionais, valores e crenças.

O primeiro passo nesse processo é investir no autoconhecimento que possibilita mudanças comportamentais, solução de conflitos e melhorias nos relacionamentos.

  • Comunicação organizacional adequada:

Para uma boa comunicação organizacional é preciso desenvolver a capacidade de prestar atenção no outro e ouvir sem prejulgamentos, além de saber expressar ideias e pensamentos claramente.

A escuta ativa é uma habilidade fundamental para se conectar de forma direta e empática com os outros, sem permitir que as próprias experiências e histórias de vida interfiram na compreensão do discurso de terceiros.

Figura 1.2 Escuta ativa.
Figura 1.2 Escuta ativa.
  • Desenvolvimento da inteligência emocional:

A inteligência emocional é a base para a obtenção da maior parte das habilidades interpessoais necessárias ao sucesso no mercado de trabalho. No entanto, aprender a gerenciar as próprias emoções e as das pessoas ao redor no trabalho é uma tarefa que demanda bastante dedicação e esforço, uma vez que os sentimentos e emoções estão em constante transformação e nem sempre é fácil identificá-los corretamente, além dos elevados níveis de tensão e estresse que costumam existir nos ambientes profissionais.

Além das soluções propostas, recentemente muitas empresas vêm apostando em uma arquitetura organizacional aberta, ou seja, com ambientes mais integrados e menos paredes e portas, para estimular a cooperação entre os diversos setores e funcionários. A eliminação de barreiras físicas, contudo, parece não trazer os mesmos benefícios gerados pelo aperfeiçoamento de habilidades psicológicas. De acordo com uma pesquisa dos professores Ethan Bernstein and Stephen Turban, da Harvard Business School, a quantidade de interações face a face paradoxalmente diminuiu bastante (70%) nesse tipo de arquitetura, enquanto os contatos virtuais e dispositivos eletrônicos subiram consideravelmente (The Royal Society Publishing, 2018).

Embora possa ser eventualmente difícil de alcançar, a cooperação no trabalho é útil em diversos cenários que uma empresa pode enfrentar.

  • Definição de novos processos operacionais, modelos de negócios e estratégias:

A atual configuração do mercado gera pressão para que as organizações se adaptem, elaborem novos formatos de gestão e uma cultura da adaptação que favoreça o constante desenvolvimento pessoal e coletivo dos funcionários. Essa necessidade é comum a companhias de todos os setores, seja um estabelecimento de varejo, uma empresa de serviços ou um comércio online.

Diante dessa realidade, as equipes precisam mais do que nunca de uma filosofia cooperativa, que facilite a adoção de novos processos, modelos de negócios e estratégias.

  • Integração de processos e tecnologias emergentes à rotina corporativa:

Até poucos anos atrás, uma empresa de serviços tradicional disponibilizava uma ou duas soluções como opções para o consumidor. O cliente poderia, por exemplo, escolher um pacote de serviços mensal ou avulso. Atualmente, porém, a maioria das empresas oferece uma vasta gama de produtos, serviços e tipos de contratos.

Os serviços são extremamente flexíveis e personalizados, e esse novo formato cria grandes desafios de gestão. Nele, até mesmo o registro de um acordo com um consumidor pode ser uma tarefa árdua, dependendo do sistema de gestão utilizado pela empresa.

Nesse contexto, possuir uma equipe de trabalho cooperativa, coesa e alinhada com as exigências do mercado contemporâneo é uma grande vantagem competitiva para qualquer organização.

  • Criação de novos produtos, serviços e experiências para os consumidores:

A cooperação no trabalho em equipe é uma ferramenta bastante útil também na hora de elaborar e lançar novos produtos, serviços e experiências no mercado. Através dela, o processo de desenvolvimento ou aperfeiçoamento desses itens se torna muito mais participativo, integrado e criativo.

  • Controle de resultados e financeiro:

O controle do desempenho organizacional em termos financeiros e de resultados é fundamental para o crescimento da lucratividade e para a administração de qualquer segmento de empresas. Um negócio que desconhece o próprio volume de vendas e lucros corre dois grandes riscos: ganhar muito menos do que é capaz ou, na pior das hipóteses, ver sua operação quebrar.

Um espaço de trabalho marcado por bons relacionamentos interpessoais, por outro lado, proporciona o ambiente ideal para a troca de informações e pareceres entre os funcionários e o monitoramento da performance corporativa.

A FELLIPELLI entende a importância da cooperação no meio empresarial e por isso oferece assessments e cursos exclusivos nas áreas de desenvolvimento pessoal e de equipes, relacionamentos interpessoais, neuroplasticidadeinteligência emocional e muitas outras. Consulte-nos!

Para saber mais:

  • The Evolution of Cooperation. Robert Axelrod. Basic Book, 2006.
  • O que podemos aprender com os gansos (What We Can Learn from the Geese): Lições de cooperação, liderança e motivação para melhorar a qualidade de vida, o ambiente de trabalho e a produtividade da empresa. Alexandre Rangel. Panda Books, 2013.
  • A Arte de Caminhar “Como-Um”: Praticando a Cooperação a Cada Passo. Celia Teresinha Bottura. República Editorial, 2018.

Referências bibliográficas

  • HBR, 2014. Acesso em: 01/07/2019.
  • FRIEDMAN, Ron. The Best Place to Work: The Art and Science of Creating an Extraordinary Workplace. TarcherPerigee, 2015.
  • MEDALLIA, 2019. Acesso em: 01/07/2019.
  • NALEBUFF, Barry J. e BRANDENBURGER, Adam M. Co-opetition. Doubleday,
  • The Royal Society Publishing, 2018. Acesso em: 01/07/2019.

Tema: Cultura Organizacional.

Subtemas: Como analisar os princípios, as aplicações e as vantagens da cultura da cooperação no meio corporativo.

Objetivo: Desenvolvimento Organizacional, Clima Organizacional, Desenvolvimento de Equipe, Team Building , Relacionamentos Interpessoais, Gestão de Conflitos, Feedback, Desenvolvimento Pessoal, Coaching, Coaching nas Empresas.

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