Ser total: despertando e desenvolvendo competências10 min de leitura

Mesmo com os grandes avanços, ainda há inúmeros questionamentos sobre a mente humana e seu complexo sistema envolvendo memórias, gestão de emoções e sua relação com o cognitivo.

Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade.”

– Charles Chaplin

Nós desempenhamos apenas uma ínfima parcela de nosso potencial como seres humanos. De acordo com o neurocientista e autor bestseller David Cooper, isso ocorre porque nossa neurobiologia não é programada para o sucesso no mundo moderno; na realidade, nossas tendências naturais costumam atrapalhar nosso desenvolvimento nesse sentido (ENTREPRENEUR, 2016).

Ao longo de milênios de evolução, o cérebro humano adquiriu certas inclinações, ou seja, padrões comportamentais vantajosos para a sobrevivência nos tempos primitivos, tais como a busca por segurança, tranquilidade e a aversão a mudanças. Paralelamente, repelimos situações dinâmicas, incertas e estressantes – características inerentes ao ambiente de trabalho moderno.

Existem, contudo, meios estratégicos para acessar e reconfigurar essa programação cerebral obsoleta, adequando os parâmetros mentais e, por conseguinte, aperfeiçoando a performance. Um dos mais eficazes é o chamado upwiring, recentemente elaborado por Cooper e relacionado ao contínuo processo de renovação celular de todo organismo vivo (COOPER, 2019).

Figura 1.0 Upwiring.
Figura 1.0 Upwiring.

É biologicamente impossível para qualquer organismo vivo permanecer o mesmo ao longo do tempo, ou seja, as estruturas celulares se renovam e crescem ou morrem.

Esse mecanismo, conhecido como lifewiring, também ocorre no cérebro, com mais de 100 bilhões de neurônios nascendo e sucumbindo todos os dias.

Ao observar o processo de renovação celular e neuronal, Cooper se questionou se seria possível direcionar esse curso em prol da criação de uma estrutura cerebral mais apropriada e vantajosa para os desafios contemporâneos. Afinal, se nossos cérebros estão se transformando em tempo real, eles estão se deteriorando (downwiring) ou progredindo (upwiring)?

Para alcançar um desenvolvimento cerebral contínuo e consistente, Cooper recomenda os seguintes procedimentos:

  • Need for Cognition (NFC)

Moldar os mecanismos cerebrais para atender propósitos mais significativos em nossa vida atual é um desafio que exige persistência e curiosidade. Aqui se aplica o conceito de Need for Cognition (NFC) ou sede de conhecimento, que se refere à curiosidade, ao desejo de evoluir constantemente e adquirir cada vez mais autoconsciência.

Para estimular a NFC, Cooper sugere uma estratégia simples: imagine uma miniatura de si mesmo pousada em seu ombro, observando suas atividades rotineiras. Essa abordagem permite repensar o que é feito automaticamente todos os dias.

  • Pausas de 1 segundo

Para evitar as inclinações naturais do cérebro de buscar por segurança e conforto, é necessário fazer pequenas pausas antes de reagir a desafios, problemas e oportunidades. Dessa forma, é possível impedir que importantes tomadas de decisões ocorram no “piloto automático” biológico, assumindo o controle das próprias ações.

Ao utilizar essa técnica, é interessante também definir quais áreas da vida requerem maior atenção no momento – algo que pode ser feito a partir do exercício da “miniatura de si mesmo” descrito acima.

  • Propósito de vida:

Esta é a parte mais estratégica: manter em mente o que você realmente almeja, ou seja, o legado que você pretende deixar. Ao lembrar sempre do impacto que você quer fazer no mundo, torna-se mais fácil adequar os atos e comportamentos rotineiros a ele.

Figura 1.1 Pensar constantemente no que é de fato importante ajuda a evitar falhas e distrações.
Figura 1.1 Pensar constantemente no que é de fato importante ajuda a evitar falhas e distrações.

Desbravando as emoções

Todas as emoções negativas se baseiam na ignorância, e na ignorância não há bases sólidas.”

– Dalai Lama

Os filósofos antigos acreditavam que as emoções e os sentimentos humanos estavam relacionados a uma entidade alheia ao corpo.

Atualmente, porém, sabemos que, assim como o raciocínio lógico, as emoções e os sentimentos são processados no cérebro e participam diretamente da construção do nosso raciocínio.

A chamada consciência básica, por sua vez, exige sentimentos, ou seja, o cérebro precisa ser capaz de representar tudo o que acontece no corpo e fora dele de modo bastante detalhado.

A neurociência é a ciência que analisa as bases neurais da atividade psicológica, conhecida como neurociência cognitiva. Os recentes avanços da neurociência trouxeram novos questionamentos científicos acerca das bases neurais das funções psicológicas e do cérebro como um todo.

De acordo com o renomado neurocientista português António Damásio, professor da University of Southern California, em Los Angeles, onde dirige o Instituto do Cérebro e da Criatividade, a emoção corresponde a uma série de reações motoras que o cérebro produz no corpo em resposta a alguma coisa. Trata-se de movimentos como a aceleração ou desaceleração do batimento cardíaco e tensão ou relaxamento dos músculos. Há programas específicos para a raiva, para a compaixão, para o medo, etc. Já o sentimento é a forma como a mente interpretará todos esses movimentos, isto é, a experiência mental associada a eles. Embora alguns sentimentos não estejam relacionados com emoções, todos têm a ver com movimentos do corpo. A fome, por exemplo, é a percepção mental de que o nível de glicose no organismo está caindo e você deve comer (DAMÁSIO, 2011).

O filósofo e psicólogo francês Henri Wallon (1879-1962) foi um dos pioneiros no estudo genético da emoção, descrevendo-a como a primeira manifestação de necessidade afetiva que temos na vida, ainda bebês, e como um caminho para formar elos com o meio – tanto biológico como social. Quando nasce, uma pessoa é só emoção e, de acordo com Wallon, ela desempenha um papel crucial na evolução da consciência de si mesmo, atuando como um “fenômeno psíquico e social, além de orgânico” (WALLON, 1968). No início temos apenas sensações de bem-estar e mal-estar, mas com ao longo do tempo evoluímos para o estabelecimento de padrões posturais como medo, raiva, ciúme, alegria etc.

Além da comunicação, Wallon atribui à emoção também o papel de mobilizar o ambiente para suprir o prolongado período de dependência, típico da espécie humana. A emoção é fundamental para a sobrevivência nos primeiros anos de vida, durante os quais dependemos de terceiros para assegurar as necessidades mais básicas. Aos poucos vamos modelando as emoções e formando a diferenciação, processo que origina a razão.

A expressão afetiva, no entanto, não ocorre apenas na chamada fase impulsivo-emocional da infância, mas continua por toda a vida. Para explicar o desenvolvimento cognitivo do ser humano, Wallon criou o conceito de campos funcionais, ou seja, categorias de atividades cognitivas específicas. Ele destaca quatro deles (GOBAR, 1968):

  • Motricidade

Como um dos primeiros a se desenvolver na espécie humana, é o movimento que estimula o surgimento dos outros campos funcionais. Está também intimamente relacionado às emoções, mobilizando a afetividade em suas diversas facetas. Wallon entende o movimento como uma tradução da vida psíquica, antes da manifestação da fala (WALLON, 1975).

  • Inteligência

De acordo com a teoria psicogenética de Wallon, a inteligência evolui a partir de aspectos biológicos e sociais, isto é, “a gênese da inteligência é genética e organicamente social” (WALLON, 1995). Enquanto os fatores biológicos dizem respeito às emoções que estabelecem “uma relação imediata dos indivíduos entre si”, os fatores sociais correspondem à comunidade que fornece o sistema de símbolos e a linguagem, ambos instrumentos poderosos para aumentar o poder de abstração de uma pessoa (WALLON, 1995; WALLON 1971).

  • Pessoa (formação do eu)

Na concepção walloniana, o ser humano adulto é em si mesmo um campo funcional, o qual paralelamente se vale dos outros campos para diferenciar-se dos outros e do ambiente em que vive.

Na infância as atividades cognitivas ainda não se encontram claramente distintas, ou seja, a criança não é capaz de se enxergar como um indivíduo singular, confundindo-se com o meio em uma espécie de simbiose.

Com o passar dos anos, porém, a pessoa consegue construir a própria personalidade e torna-se apta a se reconhecer como um organismo independente.

  • Afetividade

A afetividade é a etapa mais primitiva do desenvolvimento humano, precedendo a cognitividade. Segundo Wallon, afetividade é um conjunto funcional que responde pelos estados de bem-estar e mal-estar quando o ser humano é afetado e atinge o ambiente que o rodeia.

Trata-se do domínio das emoções, dos sentimentos, das experiências sensíveis e das vivências de cada pessoa.

Para Wallon, a afetividade envolve manifestações de dimensões tanto psicológicas como biológicas – as manifestações psicológicas são representadas pelos sentimentos e desejos, enquanto as manifestações biológicas correspondem às emoções (WALLON,1968).

Estudiosos renomados como Lev Vygotsky e Jean Piaget já haviam abordado a importância da afetividade, porém foi Wallon quem tratou o tema com mais profundidade. Para ele, as emoções são essenciais no desenvolvimento humano, já que é através delas que o indivíduo exterioriza desejos, vontades e apatia.

De acordo com Henri Wallon, a afetividade está presente em todas as fases da vida e é exteriorizada de três formas (WALLON, 1971):

  • Emoção: é a primeira expressão da afetividade e, normalmente, não é controlada pela razão. É quando temos o impulso de bater em alguém que nos ofende, mesmo sabendo não ser a melhor atitude.
  • Sentimento: é a forma de expressão que já tem ligação com o cognitivo, ou seja, o indivíduo consegue sofrer aquilo que o afeta.
  • Paixão: a principal característica é o autocontrole. Lembra da situação de bater em alguém que o ofende? Com a paixão, o indivíduo consegue “se segurar”.

A FELLIPELLI atua nas diversas áreas relacionadas ao desenvolvimento humano, e por isso oferece assessments e cursos exclusivos nas áreas de neurociência, neuroplasticidadeinteligência emocional e muitas outras.

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Para saber mais:

  • O Erro de Descartes. Emoção, razão e o cérebro humano. António R. Damásio. Companhia das Letras, 2012.
  • O cérebro que não sabia de nada: O que a neurociência explica sobre o misterioso, inquieto e totalmente falível cérebro humano. Dean Burnett. Editora Planeta, 2018.
  • Por que Não Somos Racionais: Como o Cérebro Faz Escolhas e Toma Decisões. Ramon M. Cosenza. Editora Artmed, 2015.
  • A vida secreta da mente. Mariano Sigman. Editora Objetiva, 2017.
  • O Cérebro. A descoberta de quem somos. David Eagleman. Editora Lua de Papel, 2017.

Referências bibliográficas

  • ENTREPRENEUR, 2016. Disponível em: https://www.entrepreneur.com/article/281751 Acesso em: 01/08/2019.
  • COOPER, Robert, 2019. Disponível em: https://www.robertcooperphd.com/ Acesso em: 01/08/2019.
  • GOBAR, Ash, 1968. Philosophic foundations of genetic psychology and gestalt psychology: A comparative study of the empirical basis, theoretical structure and epistemological groundwork of European biological psychology. Martinus Nijhoff; First Edition.
  • DAMÁSIO, A. E o cérebro criou o homem. Companhia das Letras, 2011.
  • WALLON, H. Ecrits et souvenirs (textes de Wallon sur des auteurs de son choix). Enfance, n. 1-2, p. 15, 1968.
  • WALLON H. Uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Ed. Vozes, 1995.
  • WALLON, Henri. Psicologia e educação da infância. Lisboa: Editorial Estampa, 1975.
  • Organization for Economic Co-operation and Development, 2015. Acesso em: 01/08/2019.

Tema: Neurociência, Inteligência Emocional.

Subtemas: O aprendizado com os recursos da neurociência pode desenvolver potencialidades ocultas, mobilizando valores, atitudes, conhecimentos, habilidades e competências socioemocionais em prol do crescimento profissional e corporativo.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento de Competências Socioemocionais, Desenvolvimento de Competências Cognitivas, Coaching, Neurocoaching, Coaching nas Empresas.

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