Relações Interpessoais e Inteligência Emocional15 min de leitura

Considere o seguinte: nós, humanos, somos seres sociais. Viemos ao mundo pelo resultado das ações dos outros. Querendo ou não, dificilmente há um momento em nossas vidas em que não nos beneficiamos dos atos dos outros. Por essa razão, não é surpresa que a maior parte da nossa felicidade vem do contexto das nossas relações com os outros”. – Tenzin Gyatso, 14° Dalai Lama

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Ao falarmos de Relações Interpessoais, falamos da habilidade de estabelecer e manter relações mútuas e satisfatórias que são caracterizadas pela capacidade de ambas as partes “darem” e “receberem”, em que confiança e compaixão são expressas abertamente, seja em palavras ou em atitudes.

A satisfação mútua também envolve intercâmbios sociais significativos que são potencialmente gratificantes e estimulantes, caracterizados pelo “dar e receber”.

A habilidade de ter boa relação interpessoal é caracterizada pela sensibilização perante os outros. Este componente da Inteligência Emocional não está apenas associado com o desejo de cultivar relações amigáveis com outras pessoas, mas envolve a habilidade de se sentir em paz e confortável em tais relações, e de possuir expectativas positivas relacionadas a esses intercâmbios sociais.

Roger e Gary se conheceram ainda jovens na primeira semana da Faculdade de Odontologia, e pareciam ser uma dupla estranha. Roger era o típico extrovertido. Suas duas paixões na vida eram boa comida e diversão. Como resultado, ele sempre estava fora à noite até de madrugada, e acima do peso. Ele ia razoavelmente bem nos estudos, mas, ao chegar o período da graduação, passou a ir mal. Ele não se importava. Em um determinado ano, foi eleito o presidente da turma, fato que o deixou bastante contente. Agora, já estava bem acima do peso e ficando careca, mas amava as pessoas e elas o amavam.

Gary, por outro lado, era magro e sadio, um perfeccionista absoluto que estudava muito. Isso valia a pena; suas notas eram espetaculares. Em contraste ao gregário Roger, Gary se confinava em um pequeno grupo de amigos com mentalidade parecida. Quando outros estudantes precisavam de ajuda  com suas dúvidas, era ele que procuravam. Ele também era considerado o homem a ser mais bem-sucedido.

Tanto Roger quanto Gary planejavam especializar-se após a graduação – Roger em Endodontia, e Gary, em Periodontia. Roger sabia que suas notas medíocres não seriam favoráveis à sua aceitação, mesmo nos programas de graduação mais comuns. Mas um dos seus professores, que acreditava em seu talento, conversou com um amigo que lecionava em Harvard. Então, Roger foi chamado para participar em um dos programas,  e foi buscar ainda mais diversão.

Já Gary fez provas para várias instituições de grande prestígio, todas elas ávidas por ter Gary matriculado. Ele fez sua escolha, que no caso foi a Universidade de Washington, e esforçou-se muito mais que antes.

Figura 1 O sucesso profissional ligado às relações interpessoais.
Figura 1 O sucesso profissional ligado às relações interpessoais.

Ambos completaram seus cursos, casaram e constituíram família. Mas suas abordagens no trabalho eram tão diferentes quanto suas personalidades. Roger encantava-se em atender todos os tipos de problemas dentários e em conversar com amigos da profissão – da mesma forma que apreciava conversar com todos os que cruzavam seu caminho. Com isso, seu negócio prosperou desde o primeiro dia em que abriu as portas do seu consultório, pois seus pacientes o consideravam o melhor dentista que já tiveram, e, assim, recomendavam-no para outras pessoas. Finalmente, foi eleito presidente de uma grande associação odontológica e viveu feliz para sempre.

Gary, no entanto, lutou para fazer o seu trabalho sair do chão. Ele não acreditava em seu “marketing pessoal” – de fato, ele disse tais palavras com ar de desdém. Ele evitava os encontros profissionais e não se socializava com os outros dentistas. Ele sabia que seu trabalho era da mais alta qualidade, mas não conseguia fazer seu marketing em cima deste fato. Ele enviava relatórios longos e detalhados, relatando casos de pacientes que criticavam seu trabalho. O que ele pensava ser “conversa fiada” saiu do seu controle; ele não era empático na hora da consulta e, ao contrário de Roger, muito menos conseguia iniciar e cultivar um relacionamento.

Figura 1.1 As habilidades técnicas sobrepondo as relações interpessoais.
Figura 1.1 As habilidades técnicas sobrepondo as relações interpessoais.

No que diz respeito a Roger, as pessoas eram ótimas. Ele tinha muita vontade de aprender mais sobre elas e de se lembrar dos detalhes mais minuciosos de suas vidas. Seu divertimento e interesse eram evidentes e contagiantes; as pessoas se sentiam bem perto dele.

Esses fatores fizeram a diferença entre o sucesso de um e o fracasso de outro ao concluir seus atendimentos.

A habilidade de Roger em construir relações pessoais robustas com os outros, junto com sua capacidade de mostrar interesse por eles e pelas suas preocupações foi bem mais importante em seu sucesso do que suas habilidades técnicas. Por outro lado, o estilo crítico e indiferente de Gary eliminou suas potenciais referências, assim como pacientes, apesar de sua habilidade técnica impecável e da sua pós-graduação em Harvard.

 

Habilidades-chave para relacionamentos melhores

Em várias ocupações, bons relacionamentos com um vasto leque de pessoas são esperados e necessários. Eles são esperados nessas circunstâncias, são parte de uma descrição de trabalho.

É difícil imaginar um vendedor, um político, um membro do clero, um trabalhador social ou um professor com habilidades interpessoais não desenvolvidas – mas nossa pesquisa já mostrou que tais habilidades também são vantajosas em áreas que não remetem imediatamente a “profissões que têm a ver com pessoas”.

Tais grupos mais “diferentes” como programadores, engenheiros, mecânicos, contadores, cientistas e encanadores teriam maiores chances de sucesso se tivessem maiores níveis de QE. O motivo é simples.

Se um grande número de pessoas em uma determinada área está mais ou menos em pé de igualdade quanto à sua competência profissional, o que poderia permitir que alguns deles se destacassem do restante?

Lendo até esse momento, você já sabe que a resposta é a inteligência emocional.

Quais são os segredos ao iniciar e manter boas relações interpessoais? Assim como cada componente da Inteligência Emocional, há habilidades específicas envolvidas – e mais uma vez, a boa notícia é que é possível aprendê-las, o que foi provado por notáveis psicólogos, os doutores Samuel Turner e Deborah Beidel, que desenvolveram um programa chamado de “Treinamento para Efetividade Social”, feito para ajudar pessoas que sofrem de algum tipo de ansiedade social. Ao entender como alguns de nós funcionamos excepcionalmente bem em situações sociais e ao estudar os outros que sofrem de problemas sociais, eles descobriram várias habilidades-chave que farão a diferença com a prática.

Estas habilidades podem parecer bem básicas, até mesmo simplistas. Mas descobrimos que até mesmo as pessoas mais maduras e bem-sucedidas não têm consciência desses princípios. Ao sentarmos com eles e trabalharmos uma interação em particular, que para eles parece ser negativa, eles, com frequência, ficam surpresos.

De modo básico, o programa Turner-Beidel é dividido em três partes: a primeira parte envolve a consciência de seu ambiente social; ela ensina  você quando, onde e por que começar e terminar uma variedade de interações; a segunda parte – o aprimoramento da relação interpessoal – trata dos aspectos verbais e não verbais dessas interações: como ser um bom ouvinte, como mudar de tópicos, e assim por diante; a terceira parte foca nas habilidades de apresentação.

Se você se sente confortável falando em um grupo de pessoas, terá chances muito maiores de desenvolver um network útil e cultivar relações duradouras e significativas.

Vamos ver estas habilidades mais de perto. Se deseja iniciar conversas com tranquilidade, deve prestar atenção em seu ambiente social. Talvez você queira se apresentar a um estranho que encontra todo dia na parada de ônibus, ou estar pronto para responder quando for abordado por um colega de trabalho fora deste contexto (por exemplo, num teatro ou no shopping center). Talvez o ambiente seja mais ou menos intencional ou estruturado – reunião de pais e mestres ou uma aula de ginástica – ou um encontro “forçado”, como entrando em um elevador.

Como você se aproxima das pessoas nestas situações diversas? Primeiro, tenha a certeza de que tem a atenção delas. Elas estão ocupadas com algo, ou sabem da sua presença e dão um sorriso? No último caso, a melhor forma de quebrar o gelo com um estranho é sorrir de volta e se apresentar. Você pode comentar sobre algo que vocês têm em comum (o mesmo ônibus que pegam ou o mesmo filme que já viram ou desejam ver).

Selecionar um tópico para a conversa é mais importante. Três áreas gerais podem ser consideradas como as “seguras” para discussão. São elas: eventos atuais, carreiras e interesses em comum. A maior parte de nós, se estivermos inclinados a falar, tem algo a dizer sobre o que está acontecendo no mundo, ou em nosso trabalho, ou com nossos hobbies.

É mais fácil manter a bola rolando quando a conversa se inicia por assuntos tangíveis – um carro de uma pessoa ou a sua escolha da decoração do escritório. Com estranhos, a ideia é chamar a atenção deles fazendo perguntas que sejam específicas (há quanto tempo eles frequentam o mesmo lugar que você está) e depois indo em direção às perguntas mais abertas (em quais outros lugares eles já estiveram).

Eis aqui uma situação típica que você pode recriar em sua mente: você está na fila de uma mercearia, e você repara que o homem da frente é uma pessoa que você já viu antes. Ele nota você e sorri – uma dica de que ele está aberto a conversar. Como sua conversa irá se desdobrar? Imagine sobre o que você falaria em vários tópicos e como “trocaria a marcha” caso as coisas não saíssem do jeito certo. Observe por quanto tempo consegue ter este diálogo imaginário, visando terminá-lo da melhor forma possível.

Enquanto fizer isso, certifique-se de que uma conversa flui de forma mais livre se prestar atenção ao que a outra pessoa disser. Às vezes, quando encontramos alguém, estamos tão preocupados com nossas próprias questões – como estamos, que tipo de primeira impressão causaremos, se falaremos ou não as coisas certas – que a conversa se separa em dois monólogos diferentes, em vez de a conversa criar um laço entre as duas partes.

Figura 1.3 Profissionais bem-sucedidos praticam o “dar e receber”.
Figura 1.3 Profissionais bem-sucedidos praticam o “dar e receber”.

Mas você pode praticar o “prestar atenção” aos outros da mesma forma que pode praticar os outros componentes da Inteligência Emocional.

De fato, este componente está diretamente ligado à empatia. Pense agora em várias pessoas que conheceu recentemente… O que mais se destaca em sua mente? Você acha que seria útil tomar notas sobre essas e outras pessoas, para que possa se lembrar de detalhes importantes? Você ficaria surpreso ao saber o quanto isso significa para as pessoas, se você se lembrar de detalhes sobre elas nesse mundo ocupado e impessoal, demonstrando que as valoriza e que tirou proveito de encontros anteriores.

Outra importante habilidade conversacional é a de mudar de assunto de forma leve e apropriada. Mais uma vez, esteja atento aos sinais que indicam que é a hora de mudar o tópico. Frases simples como “Pensando bem…” ou “Isso me lembra…” podem funcionar. No entanto, cuidado para não permanecer em um único assunto, a não ser que seja mutuamente útil. As pessoas que mudam muito de assunto podem ser vistas como sendo superficiais.

Dar e receber é a chave para construir boas relações interpessoais. As pessoas que apenas dão, com bastante frequência, são consideradas pelos outros com tendo baixa autoestima e muito submissas. Tais pessoas podem ter dificuldades para serem assertivas, o que alimenta a sua atitude em “doar-se demais”. As pessoas que só recebem em um relacionamento são vistas pelos outros como egoístas e ameaçadoras. Elas também têm dificuldades com a assertividade, confundindo assertividade com agressão. Nos dois casos colocados, os indivíduos não são bem-sucedidos na construção de relacionamentos sólidos.

As pessoas que têm proficiência na construção de relacionamentos interpessoais fortes sabem, intuitivamente, que tais relações são baseadas na mutualidade: a reciprocidade em “dar e receber”.

Os relacionamentos que afundam podem ser rastreados por falta de reciprocidade: ou um dos dois enfraquece a relação por que uma das partes está sempre recebendo e nunca dando ou vice-versa.

Na situação anterior, uma pessoa irá minar o relacionamento por ser vista como exploradora, aproveitadora, oportunista, como uma pessoa que usa os outros. No último caso, um dos parceiros em potencial – que sempre dá, mas é incapaz de receber – enfraquece a relação, pois, através deste comportamento, é visto como muito carente, como se não fosse digno(a) de amizade e assim, tendo que “comprá-la”. O comportamento desta pessoa pode causar, em outros, sentimentos de culpa, de obrigação, de rejeição – sentimentos estes que vão contra a construção de uma boa relação interpessoal.

Profissionais bem-sucedidos em todos os níveis de uma organização – desde os que ficam na linha de frente até os CEOs – sabem, intuitivamente, que as relações são construídas na base dessa reciprocidade.

Eles sabem outro fator crucial na construção de relações firmes e resilientes: ouvem mais do que falam, e ouvem atentamente o que o outro está dizendo. Outras pessoas podem dizer, de um desses funcionários, algo do tipo: “Ele realmente me levou a sério… Senti-me como se eu fosse a única pessoa na sala. Ele estava interessado de verdade… Naqueles 5 minutos me senti valorizado, apreciado, fui levado a sério, o centro das atenções dele”.

Qual o motivo destas respostas?

O motivo é que a escuta ativa, autêntica e atenta constrói relacionamentos fortes. Quando ouvido desta forma, o falante se sente-se valorizado, atendido e interessante. Muitas vezes, pensamos que desenvolver um relacionamento significa que temos que falar muito, impressionando os outros com nossas conquistas, fazendo com que o mundo saiba das nossas realizações passadas e dos nossos sonhos para o futuro. Não é assim. Tal comportamento nos faz correr o risco de sermos arrogantes, interessados apenas em nós mesmos. Como um CEO me disse uma vez, “Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para que a gente fale menos e ouça mais!”

 

Criando e mantendo amizades                                                   

Entre as maiores recompensas da vida estão os bons e solidários amigos. Eles são as pessoas que procuramos nos momentos de alegria e angústia, ou simplesmente para falar sobre as dificuldades do dia a dia. O “dar e receber” desses relacionamentos vitais vale a pena em formas quase que imperceptíveis em curto prazo, mas que em longo prazo vale muito mais a pena.

Onde você pode conhecer novos amigos? Como você pode estabelecer relações novas e interessantes? Bom, não há falta de lugares para se conhecer pessoas – igrejas ou sinagogas (que, obviamente, sugerem que há um laço religioso compartilhado) ou aulas para adultos (que, obviamente, atraem pessoas dos mesmos interesses) são ótimos lugares para começar.

Estar em forma é bom tanto para o corpo quanto para a alma, e as academias e eventos esportivos atraem uma diversidade de pessoas de todas as idades. Você pode até cogitar trabalhar em um partido político ou em organizações escolares ou comunitárias. É claro que os filhos e bichos de estimação servem como um quebra-gelo. Tem filhos na escolinha de futebol, dança ou teatro? Muitas amizades acontecem quando torcemos por eles.

Saber onde encontrar pessoas é apenas um primeiro passo… Em seguida, você terá de iniciar o contato, reconhecendo as dicas que sugerem que a outra pessoa está interessada na busca por assuntos. A conversa leva a um convite, começando por atividades sem compromisso (um café antes do almoço ou um almoço antes do jantar). Faça o convite de forma que você possa medir o interesse da outra pessoa, ao sugerir, talvez, que possa fazer algo “qualquer hora”. Uma resposta positiva significa “vá em frente”, enquanto uma resposta neutra significa “tente de novo outra hora”.

A próxima etapa, assim que tiver estabelecido uma relação com alguém, é a manutenção do contato, seja pessoalmente, por telefone ou e-mail. Isto é importante para ambas as partes, para que saibam que o outro não perdeu o interesse; ao manter contato, você dá a essa nova amizade, tempo para que se desenvolva e evolua.

Clique abaixo e faça atividades de autoavaliação e autoatribuições relacionadas a relacionamento interpessoal e Inteligência Emocional:

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Referência: Capítulo 9 do livro The EQ Edge: Emotional Intelligence and Your Success, Steven J. Stein, Howard E. Book.

Traduzido, revisado e adaptado por Fellipelli Consultoria Organizacional.

Tema: Inteligência Emocional, EQ-i® 2.0.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Coaching, Coaching nas Empresas, Assessment.

Este conteúdo é de propriedade da Fellipelli Consultoria Organizacional. Sua reprodução; a criação e reprodução de obras derivadas – a transformação e a adequação da obra original a um novo contexto de uso; a distribuição de cópias ou gravações da obra, na íntegra ou derivada -, sendo sempre obrigatória a menção ao seu autor/criador original.


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