O ciclo da resiliência e a organização resiliente12 min de leitura

Como reconhecer a importância da resiliência para o sucesso no mundo dos negócios e adotar atitudes positivas para a sua carreira e/ou organização

Errei mais de 9.000 cestas e perdi quase 300 jogos. Em 26 diferentes finais de partidas fui encarregado de arremessar a bola que venceria o jogo… E falhei. Eu tenho uma história repleta de falhas e fracassos em minha vida. E é exatamente por isso que sou um sucesso.” – Michael Jordan

Na física, um objeto resiliente é aquele que, como uma mola, reassume a sua forma original após sofrer grande pressão. A psicologia tomou emprestado o conceito de resiliência para descrever a capacidade de  superar os efeitos de uma contrariedade, a disposição para se recompor e dar a volta por cima após enfrentar problemas. No entanto, ao contrário do que acontece com uma mola, para o ser humano não é possível passar por experiências difíceis e sair do mesmo jeito que entrou, ou seja, cada desafio vencido resulta em um aprendizado diferente.

No âmbito organizacional, a trajetória de uma empresa é geralmente composta por fases boas e ruins, o que exige adaptabilidade e remanejamentos constantes. Nesse cenário, a resiliência desponta como uma qualidade essencial para que o empreendimento sobreviva e prospere.

Figura 1.0 Resiliência empresarial.
Figura 1.0 Resiliência empresarial.

De acordo com um relatório do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), de cada 4 empresas abertas, 1 fecha antes de completar 2 anos de existência no mercado (SEBRAE, 2013). Por que esses empreendimentos sucumbem às dificuldades do mercado e não conseguem alcançar um desempenho econômico satisfatório?

Ao analisar a “causa mortis” dessas empresas, o Sebrae paulista buscou levantar os principais pontos que favorecem a sobrevivência organizacional, do primeiro ao quinto ano de atividade de uma companhia, no estado de São Paulo. A pesquisa analisou também o perfil de seus fundadores e dessas “jovens” organizações de até cinco anos de idade (SEBRAE SP, 2011).

A falha de comunicação com o público-alvo da empresa e a ausência de uma estratégia clara e eficiente de marketing digital são dois fatores apontados pelo estudo como os principais responsável pelo fracasso e “morte” precoce de organizações. Além disso, em um mercado cada vez mais competitivo e desafiador, outra qualidade também se revela um divisor de água em todos os tipos de negócios: estamos falando novamente da resiliência.

Os fundamentos da resiliência

Quem tem um ‘porquê’ enfrenta qualquer ‘como’.” – Viktor Frankl

Diante de situações estressantes e crises, quando nada mais faz sentido e parece inútil continuar lutando, existem dois caminhos a seguir: o primeiro é a resignação, ou seja, desistir e se conformar com a derrota; o segundo, mais árduo e desafiador, é a resilência.

A vida é feita de transições e recomeços, mas por que algumas pessoas não desistem e retomam seus projetos mais rapidamente do que outras?

A explicação para reações tão diferentes a circunstancias parecidas não é simples, mas a neurociência e o estudo das emoções humanas nos fornecem pistas importantes.

Austríaco judeu, Viktor Emil Frankl (1905 – 1997)  tornou-se um dos mais renomados psiquiatras da história ao desenvolver uma metodologia terapêutica baseada na busca pelo sentido da vida – a logoterapia.

A logoterapia é conhecida também como a “terceira escola de psicologia de Viena” – ela foi precedida pela de Sigmund Freud e a de Alfred Adler. Enquanto Freud considerava o prazer o objetivo final de todo ser humano, Adler via o poder como essa meta de vida. Frankl, por sua vez, acreditava que o homem era dirigido pelo sentido.

O termo logoterapia vem do grego e significa “sentido”. A logoterapia, portanto, se concentra no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por este sentido.

Os fundamentos da terceira escola de psicologia, porém, podem ser melhor compreendidos ao examinar a trajetória pessoal de seu fundador Viktor Frankl.  Frankl sobreviveu a quatro campos de concentração – entre eles Auschwitz. Sua recém-esposa Tilly Grosser foi forçada a abortar seu primeiro filho pelos nazistas, e seus pais e irmã foram enviados para campos de concentração diferentes. Somente sua irmã consegue escapar, refugiada na Itália.

Embora tenha se salvado, Viktor passou três anos prisioneiro, realizando trabalhos forçados em condições subumanas. Durante esse período, escreveu boa parte de seu livro “Em Busca de Sentido” (1946). Nesta obra, Frankl defende que cada pessoa deve criar um sentido para a própria existência, ou seja, ter um grande ideal a perseguir na vida é fundamental para alcançar a felicidade.

Nesse sentido, uma vez estabelecido o “porquê”, a questão passa a ser o “como”.

Nos campos de concentração, mesmo em condições extremamente adversas e precárias, Frankl notou que algumas pessoas conseguiam se manter ativas e esperançosas, enquanto outras rapidamente perdiam a sanidade mental e sucumbiam. Ele chamou de resiliência a esta capacidade de seguir lutando e não se entregar.

Para Viktor Frankl, resiliência é “a vontade de sentido” do ser humano, através da qual ele consegue resistir a dores e sofrimentos que parecem não fazer sentido algum. Como qualquer pessoa passa por momentos ruins e até dramáticos durante a vida, é necessário encontrar um propósito maior, um sentido no sofrimento para manter a esperança de sobreviver e prosperar.  “Quando não conseguimos mais mudar uma situação, temos o desafio de mudar a nós mesmos”, resume o autor.

Em sua obra, Frankl transmite sete lições essenciais para desenvolver uma atitude interior resiliente (FRANKL, 2017):

  1. Escolha a esperança

“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir” (CORALINA, 2017). Essas palavras da poetisa e contista goiana Cora Coralina (1889-1985) revelam que todo mundo pode escolher entre se entregar ou permanecer combativo. Há basicamente dois modos de interpretar os fatos e as experiências da vida:

  • Interpretação negativa: ao assumir o papel de vítima das circunstâncias, a pessoa conduz suas emoções para o fracasso.
  • Interpretação ativa: tomar as rédeas da própria vida exige coragem para enfrentar seus problemas e dificuldades.
  1. Crie um projeto pessoal de vida

Frankl ensina: “o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior” (FRANKL, 2017).

Para se tornar mais resiliente diante das adversidades, é importante elaborar projetos que deem sentido à existência. Quando existe um objetivo maior a atingir, os problemas passam a ser encarados como meros obstáculos a superar.

  1. Compreenda suas emoções

Pessoas que vivem sem explorar e conhecer de fato as próprias emoções estão fadadas ao fracasso, já que sequer sabem o que as faz bem e não conseguem evitar as ciladas da vida. Além disso, emoções bem resolvidas proporcionam relacionamentos interpessoais mais saudáveis e ajudam a lidar de forma construtiva com o estresse do dia a dia.

  1. Tenha coragem para chorar

Em uma sociedade que supervaloriza o sucesso e despreza o sofrimento, é preciso ser corajoso para assumir a própria angústia e vivenciar momentos de tristeza. As pessoas perseguem tanto ideais imaginários de felicidade que se esquecem que ela não existe sem momentos pontuais de dor.

  1. Trilhe seu próprio caminho

O comportamento de manada ou psicologia das massas, típico da espécie humana, impede a construção da individualidade ao discriminar aqueles que optam por seguir um caminho diferente. Para ter uma vida significativa, porém, é necessário se destacar do bando e caminhar de acordo com as próprias convicções.

Figura 1.1 Pessoas resilientes não se curvam ao senso comum.
Figura 1.1 Pessoas resilientes não se curvam ao senso comum.
  1. Adote a bondade como filosofia de vida

As pessoas altruístas – ou seja, aqueles dedicam tempo e esforços a ajudar os outros – costumam ser mais felizes, já que experimentam mais sentimentos de satisfação e orgulho de si mesmas.

  1. Seja otimista e assuma o compromisso de ser feliz

O poeta indiano Rabindranath Tagore (1861-1941) dizia: “tenho a minha própria versão do otimismo. Se eu não consigo abrir uma porta, abrirei outra ou eu mesmo farei uma terceira. Algo maravilhoso virá, não importa o quão escuro o hoje está”.

O ciclo da resiliência

Eu não falhei. Eu apenas descobri 10 mil maneiras que não funcionam. Mas não desisti até acertar.” – Thomas Edson

Como vimos, ser resiliente muitas vezes representa uma questão de sobrevivência, e cabe a cada pessoa escolher entre persistir ou não.

Se alguém consegue errar, perseverar e depois acertar é porque é resiliente.

Essas lições também são válidas no meio corporativo, onde qualidades como motivação e força de vontade mostram-se ainda mais relevantes para resistir às crises e se fortalecer mesmo em situações críticas. Para tanto, porém, a organização precisa contar com uma equipe bem selecionada, composta por indivíduos que detenham características específicas do chamado ciclo da resiliência.

Figura 1.2 Ciclo da resiliência.
Figura 1.2 Ciclo da resiliência.

Vamos analisá-las separadamente a seguir:

  • Autoconfiança

É praticamente impossível ser bem-sucedido profissionalmente sem autoconfiança. De acordo com Tony Schwartz, presidente e CEO da The Energy Project e autor do bestseller “Be Excellent at Anything: The Four Keys to Transforming the Way We Work and Live” (SCHWARTZ, 2011), a autoconfiança gera segurança, que desencadeia emoções positivas que por sua vez levam à alta performance.

Para se tornar mais confiante, Schwartz aconselha ser honesto consigo mesmo sobre as próprias aptidões e deficiências, aperfeiçoando os pontos fracos e aproveitando oportunidades de desempenhar tarefas que exijam as habilidades recém-adquiridas.

  • Proatividade

Toda empresa precisa de funcionários proativos, tendo em vista que eles realizam mais do que é pedido, tiram mais ideias do papel e combatem a resistência a mudanças no ambiente de trabalho. Pessoas proativas não têm medo de correr riscos calculados e são capazes de se antecipar aos problemas, focando no que é realmente importante, não no que é urgente.

O colaborador proativo tende a ser destacar profissionalmente por lidar com colegas de comportamento oposto, ou seja, reativas. Isso ocorre porque a maioria das pessoas evita pensar no que pode dar errado e prefere se concentrar no presente, apagando incêndios em vez de preveni-los.

  • Relacionamento interpessoal:

As chamadas competências socioemocionais são indispensáveis no meio corporativo, uma vez que a capacidade de trabalhar bem em equipe e se colocar no lugar do outro favorece o desempenho e os resultados finais da empresa.

Além disso, pessoas com fortes competências socioemocionais conseguem se adaptar às diversas transformações e exigências do trabalho, modificando a própria forma de atuação para colaborar de modo mais efetivo com a organização (Harvard Graduate School of Education, 2017).

  • Aprendizagem contínua:

A aprendizagem é um processo de aquisição da capacidade de empregar o conhecimento através de prática, experiência e reflexão crítica (PIAGET, 1972). Aprendizagem contínua, por sua vez, corresponde à aplicação estratégica dessa dinâmica.

As empresas devem encontrar meios de desenvolver seus profissionais por meio de treinamentos e incentivos à busca por conhecimento, mantendo-os sempre atualizados.

Essa postura é vantajosa tanto para o indivíduo quanto para a própria organização, já que o dia a dia corporativo exige que os funcionários repensem, recriem e reprogramem ações frequentemente.

Profissionais e empresas resilientes conseguem reagir rapidamente a mudanças inesperadas e crises nos cenários econômico e político. Eles não somente sobrevivem, mas também triunfam em situações desfavoráveis, alcançando um sucesso duradouro e sustentável.

Para promover a resiliência, a FELLIPELLI atua nas diversas áreas relacionadas ao desenvolvimento humano, tais como desenvolvimento pessoal e de equipesrelacionamentos interpessoaisneuroplasticidade, inteligência emocional e muitas outras.

Consulte-nos!

Para saber mais:

  • Resiliência – O segredo da força psíquica. Christina Berndt. Editora Vozes, 2018.
  • Resiliência – Competência para enfrentar situações extraordinárias na sua vida profissional. Paulo Yazigi Sabbag. Alta Books, 2017.
  • Como Construir Sua Resiliência. Um Guia Para Rebater os Desafios da Vida e Conquistar o Mundo. Brett Mckay & Kate R. Mckay. Editora Auster, 2019.

Referências bibliográficas

  • SEBRAE, 2013. Acesso em: 01/08/2019.
  • FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Editora Vozes, 2017.
  • CORA, Coralina. Melhores poemas. Editora Global, 2017. Seleção de Darcy França Denófrio.
  • SCHWARTZ, Tony. Be Excellent at Anything: The Four Keys To Transforming the Way We Work and Live. Free Press, 2011.
  • Harvard Graduate School of Education, 2017. Acesso em: 01/08/2019.
  • PIAGET, Jean. Development and learning. in LAVATELLY, C. S. e STENDLER, F. Reading in child behavior and development. New York: Hartcourt Brace Janovich, 1972.

Tema: Inteligência Emocional, EQ-i® 2.0.

Subtemas: Como reconhecer a importância da resiliência para o sucesso no mundo dos negócios e adotar atitudes positivas para a sua carreira e/ou organização.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento de Equipe, Team Buiding, Desenvolvimento Organizacional, Coaching, Coaching nas Empresas.

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